O que vivemos no Brasil é o princípio do fim da política tal como conhecemos. As eleições destruíram o velho establishment e varreram quase que por inteiro a classe política. Do PT ao PSDB, passando pelo MDB e centrão – não sobrou ninguém.  A própria eleição de Jair Messias Bolsonaro representa isso: entre a certeza na morte, autoritarismo e corrupção do petismo, os brasileiros ficaram com a incerteza representada pelo capitão reformado. Muitos dos que nele depositaram votos sequer concordam com a inteireza dos posicionamentos do deputado, mas viam ali uma alternativa que parecia mais propensa a bons frutos do que o petismo.

O que tivemos aqui no Brasil foi um apocalipse político exatamente como descrito no Mahabharata e no Apocalipse da tradição Judaico-cristã: uma era de grande degradação humana é sucedida por um grande conflito entre o bem e o mal. O hinduísmo diz que esta batalha é vencida pelo décimo avatar de Vishnu, Kalki. Ele vem a terra derrotar o demônio Kali, responsável pelo advento da “Kali Yuga”- a era de trevas, pecado, violência e torpeza humana. É o equivalente ao Armageddon bíblico, a batalha final entre as forças de Deus e seus servos contra o Diabo, o Anticristo, a Besta, anjos rebelados e representantes da sociedade humana corrompida.

Esta analogia com o processo político ajuda a explicar os traumas deste processo. A depuração da política brasileira é uma batalha entre forças antagônicas que literalmente representam o bem, a justiça, a ordem, liberdade e direitos contra forças obscurantistas que representam a corrupção, o totalitarismo, a desordem e o caos.

Quem anseia por um país livre deve entender que este processo foi necessário. Por pior que pareça a ideia de um país divido entre os diversos lados da polarização, este período de ruptura foi necessário para que possamos atravessar o Rubicão rumo ao Brasil desejado mesmo antes destes eventos. Nossa luta hoje é a concretização dos sonhos de grandes homens. Nosso patriarca José Bonifácio não imaginou o Brasil como um estado soberano para que nos tornássemos uma republiqueta latino-americana. Dom Pedro I não proclamou nossa Independência para que nos tornássemos uma província dirigida por Renans, Gleisis e Lindberghs. O sonho de Dom Pedro II não foi o de um país atrasado com mercado acorrentado e livre iniciativa amordaçada, assim como o Barão do Rio Branco não redesenhou nossa política externa para que nos curvássemos para Cuba e Venezuela. Nosso compromisso histórico é concretizar os sonhos dos irmãos Rebouças, de Joaquim Nabuco, Guilherme Merquior, Luís Gama, Rui Barbosa, Roberto Campos, Carlos Lacerda, Gilberto Freyre e tantos outros que nos precederam na luta por um Brasil forte e altivo que orgulhasse seus filhos.

É mais do que necessário lembrar que não há conquistas fáceis. É a guerra que nos traz a paz. Assim como nas literaturas apocalípticas do hinduísmo e do cristianismo, é esta ruptura que trará o advento da nova ordem para os justos. Os hindus acreditam em um recomeço da sociedade governada pelos brâmanes, enquanto a literatura judaico-cristã fala na vida eterna para os servos de Deus. Nosso norte deve ser a conquista de um país livre, onde olharemos para trás e veremos que a luta valeu a pena. A recompensa dos justos será um país melhor para as futuras gerações. Os que hoje bradam contra a polarização e dizem que o ódio venceu são os mesmos partidários da velha ordem. Ocorre que a história se impõe sobre nós para dar curso a um novo tempo. Dizia Fernando Pessoa:

“Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma nao é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.”

Eric Balbinus
@ericbalbinus
Bacharel em Relações Internacionais, pós-graduando em Ciência Política pela FESPSP, conselheiro do MBL, assessor parlamentar, palpiteiro e o mais importante: corintiano.