Por Ricardo Almeida

A eleição de 28 de outubro foi um marco na história do Brasil e um marco ainda mais especial no desenvolvimento daquilo que foi denominado de “nova direita”. Surgida na alvorada dos anos 90, a “nova direita” se inaugura, sobretudo, graças a duas iniciativas pioneiras: o trabalho de divulgação do pensamento liberal pelo IL (Instituto Liberal), fundado pelo falecido Donald Stewart Jr. e a complexa obra jornalística e filosófica do prof. Olavo de Carvalho. Os desdobramentos do arco liberal serão, grosso modo, o surgimento do Instituto Mises Brasil, do Instituto Rothbard, dos youtubers liberais, minimalistas e anarcocapitalistas, de iniciativas como a LibertyCon e do NOVO; de outra parte, os desdobramentos do arco conservador se espraiarão desde o catálogo de editoras como a É Realizações e Vide Editorial e youtubers conservadores (como Bernardo Küster e Nando Moura, p ex.), o Mídia sem Máscara e a Rádio Vox indo até grupos bolsonarianos.

Nesse âmbito, o MBL se situa numa posição mista, ao abrigar tendências tanto conservadoras quanto liberais, cuja consequência é a defesa de pautas caras a ambos os polos do espectro. Também caracteriza a ação do MBL a mistura caótica de distintos estilos de abordagem política, com o que o movimento busca conferir maior efetividade à sua plataforma, tornando-se, pois, criatura sui generis na complexa fauna de agremiações, grupos e iniciativas da “nova direita” brasileira.

A “nova direita” é um fenômeno tornado possível pela internet. Engana-se quem a vincula, exclusivamente, ao boom das redes sociais. Antes do Facebook, havia o Orkut. E, antes do Orkut não era o princípio dos tempos, mas o período de popularização da internet no país. Foi uma revolução política. A direita clamou um pedaço de terra nesse vasto latifúndio virtual. Clamou sua parte, inicialmente, através de uma rede de blogs; depois, de uma rede de sites; finalmente, houve uma proliferação de hangouts, até o advento do uso massivo do YouTube, Facebook e WhatsApp, hoje o cavalo, o escudo e a espada rutilante do assíduo militante de rede.

O sucesso da direita na internet é mundial e estrondoso. Ajudou a eleger Donald Trump, foi a campanha de Jair Bolsonaro. Há quem invoque, a esse respeito, uma suposta afinidade natural entre a direita e a  internet – com sua pulverização, agilidade e retorsão semântica nos memes e humor instantâneo – e a descentralização e pulverização da direita, oposta ao centralismo de esquerda. Tenho dúvidas céticas quanto a essa tese, preterindo-a por mais modesta versão das coisas: que a direita tenha crescido na internet por espécie de adaptação darwiniana. Aleijada de outros meios de ação e discurso, bloqueada de cargos e espaços de poder pelo hegemonismo esquerdista, a direita precisou desenvolver uma competência singular no uso dessa ferramenta, haja vista a sua disposição aberta, conectividade e, principalmente, gratuidade. Nos recessos profundos do córtex do homem pós-moderno, habita, afinal, a ancestralidade atávica do homo habilis; das ferramentas de pedra lascada ao Macintosh, nós aprendemos a dominar um instrumento quando pressionados o suficiente para tal.

A vitória de Jair Bolsonaro, essa monumental vitória do dia 28 de outubro representa o grande salto da militância virtual para o exercício da dominação burocrática, no sentido weberiano. Em 2016, tivemos o primeiro ensaio eletivo da direita. Houve uma vitória considerável. Porém, perto do que ocorreu em 2018, 2016 foi uma marolinha. 2018 é o tsunami. Com bancada ideológica formada por baixo em uns 60 deputados, nossa presença agora é expressiva, o que significa que ela se torna estrutural enquanto durar. Operá-la com inteligência estratégica, também exige, portanto, avanços de natureza estrutural a serem feitos pelos representantes eleitos, que não possam ser desfeitos depois ou que exijam, para desfazê-los, uma legitimidade atípica. Nesse sentido, cabe a militância virtual ter cada vez maior clareza a propósito das metas, dos alvos e dos meios de alcança-los, e atuar como um contraforte para os representantes eleitos.

Para ilustrar a tese, exemplos de algumas metas que se impõem à direita, a meu juízo:

(1) Revisão de todos os parâmetros de concursos públicos e processos seletivos no Brasil visando a equalizá-los e a eliminar qualquer tipo de viés ou favorecimento, em todos os âmbitos da esfera federal, e pressão para revisões similares nas outras esferas.

(2) Desaparelhamento do aparato burocrático do Estado, através de redução e substituição de pessoal. Onde houver meios lícitos de substituí-los, a esquerda precisa ter os seus quadros retirados das posições de poder.

(3) Ênfase e reforço a pautas de natureza estrutural, organizativa e funcional no Estado brasileiro, tais como: plurissindicalismo, revisão da Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional, e, provisoriamente, Escola sem Partido (a ser substituído por uma revisão muito mais abrangente da educação nacional).

(4) Corte radical de verbas estatais para o aparato de mídia ideológica de esquerda.

São apenas alguns exemplos.

Há duas colunas que sustentam a possibilidade de avanço nesta direção. A primeira é o espírito do tempo, o zeitgeist (embora não seja conceito filosófico desprovido de crítica, é uma bela síntese poética). O “espírito do tempo” atual não é de concessões, mas de polarização. Foi a polarização renitente que elegeu Jair Bolsonaro. É a polarização renitente que o fará grande, malgrado a opinião da maior parte dos analistas. Só é preciso saber onde polarizar e como fazê-lo.

É preciso avançar contra a esquerda ideológica em, rigorosamente, todos os âmbitos. Evidentemente, não nos cabe descurar das grandes pautas reformistas do governo Bolsonaro – as 4 reformas: da previdência, tributária, trabalhista e política. Mas, nessas pautas, o governo Bolsonaro terá de encontrar equilíbrio consensual mais amplo pelo seguinte fato: duas delas são pautas impopulares, ao passo que as outras duas são desagradáveis para a classe política como um todo.

Diferente é a feição das pautas de confronto ideológico. Primeiro, elas não envolvem toda a classe política, de congressistas a governadores e prefeitos – atingem uma faixa muito menor. Segundo, elas não são impopulares – ao menos, não para os eleitores do “mito”. Agem assim como uma social glue, uma cola social, e um estímulo maior a fidelização da militância de direita, enfraquecem o inimigo, e facilitam a governabilidade de Bolsonaro, que decerto encontrará resistência em todas as camadas da estrutura burocrática estatal, fortemente aparelhada pela esquerda.

O que a “nova direita” tem nas mãos é um momento único, crucial e, talvez, irrepetível no futuro: o máximo de legitimidade possível na eleição de um homem de convicções pessoais à direita, com discurso ideológico forte e sem ambiguidades. O que há de se fazer é ajuda-lo a operar esse maquinário complexo, com a urgência histórica de quem sabe os perigos que rondam a nossa vitória. A esquerda não está morta, é um lobo que morde. Tiremos os seus dentes o quanto antes, e ela, em vão, se erguerá contra nós.

Ricardo Almeida
@ricardoalmeida
Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).