Derrotada no pleito de outubro, não restou tempo para que nossa esquerda lambesse as feridas; entre um tiro e outro pelas costas – na guerra deflagrada entre os irmãos Gomes e o PT – os tentáculos do movimento socialista logo trataram de emaranhar a pièce de résistance de sua ação política: a bem sucedida máquina de doutrinação instalada em nossas escolas e universidades.

É uma questão não apenas de estratégia; é sobrevivência pura. Ainda que turbinada pelos 5 estados conquistados no nordeste (Bahia, Ceará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte), a esquerda brasileira perde espaço a olhos vistos no Centro-Sul do país, mais escolarizado e desenvolvido. O massacre imposto pelas redes sociais começa a encontrar eco na grande mídia – e os sintomas são mais profundos que a recente adesão do SBT e da Record ao Entourage midiático pró-Bolsonaro.

Com reflexo em rádios como a Jovem Pan, no mercado editorial e nas redes como um todo, o apelo político de personalidades e grupos da nova direita, como Kim Kataguiri, Arthur do Val, Joice Hasselmann, Janaína Paschoal, MBL e Brasil Paralelo, ajuda a tecer uma teia descentralizada de combate às verdades sagradas cuidadosamente construídas por uma intelectualidade que, gostemos ou não, alinhou-se despudoradamente ao projeto de poder do petismo e seus sicários.

É um problema real: nem a onda de false flag orquestrada por Pablo Ortellado e as agências de checagem foi capaz de impedir o avanço da direita. O cidadão comum simplesmente ignorou seus apelos contra as “notícias falsas no whatsapp”. “Fake News é coisa dessa imprensa bandida!” – dirá o homem brasileiro. E quem somos nós para questionar? Anos a fio de cobertura enviesada haveriam de custar caro para as redações país adentro; era questão de tempo até que o mal-estar se convertesse em guerra aberta.

Escola Sem Partido

Correndo paralelamente – e alimentando-se da crise política – a campanha pelo Escola Sem Partido tornou-se quase unânime na direita brasileira. Movimentos, vereadores e deputados acotovelam-se para aprová-lo nas mais diversas instâncias legislativas. A competição por atenção serviu para fomentar o crescimento da tese, que caiu na boca de pais e alunos e transformou-se no pesadelo maior do movimento de esquerda.

Inicialmente ignorado, passou a ser combatido. As recentes aprovações do projeto em cidades de médio porte, como Jundiaí e Rio Preto (SP), serviram de alerta para as lideranças vermelhas: algo deveria ser feito, com vigor, para impedir seu avanço. Mas já era tarde demais; ainda que dotados de formidável máquina politico-sindical – capaz de fazer frente aos grupos de direita no palco legislativo – o estrago narrativo causado pelo projeto já se comparava a uma metástase. Alimentado por flagrantes de doutrinação explícita em sala de aula – alguns com cenas de conotação constrangedoramente sexual – o fenômeno ganhou vida própria independente da ação política formal. Estava desenhado o cenário de crise.

Ademais, o que mais espanta nesta análise é a falta de sensibilidade por parte dos doutrinadores acerca da estratégia utilizada por Miguel Nagib; ao Escola Sem Partido, pouco importa a aprovação do projeto na forma de lei. O debate, acima de tudo, era o que lhe interessava. O escândalo, a ira – o impulso de desmascarar um doutrinador! – tudo isso, contribuiu de forma decisiva para que a sociedade como um todo começasse a encarar o problema com a devida gravidade. Mesclando isso com a polarização – e os recorrentes atos pró-PT em escolas e universidades apenas reforçaram a tese -, passamos a ter não mais um projeto, mas uma causa.

Uma aula de Saul Alinsky para os mestres das diatribes políticas.

Eleição de Bolsonaro inaugura o pânico

A “Nova Era”, conforme apregoado em fanfics pelas redes afora, parece ter servido de estopim para o pânico sistemático de professores e doutrinadores. Atônitos com a eleição de militantes da nova direita, passaram a ter que conviver com as gritas denuncistas de gente como Ana Campagnolo, deputada estadual eleita por Santa Catarina. Seu chamado por vídeos expondo a doutrinação em sala de aula motivaram o Ministério Público a pedir sua condenação em cerca de R$70 mil na justiça. Arbitrário e sujo, mas inútil. Na semana seguinte, o governador eleito por São Paulo, João Doria Jr., declarava abertamente seu apoio ao projeto.

Em âmbito federal, a situação é ainda mais preocupante para a esquerda: Jair Bolsonaro e seus filhos fazem campanha aberta pela tese, que fora também um de seus principais estandartes. Não podemos ignorar, tampouco, a ótima relação pessoal mantida pelo próximo mandatário com as lideranças do Escola Sem Partido; torná-lo política de estado é compromisso inegociável da próxima gestão.

A título de ilustração, até os mais desavisados perceberam a reação lacônica do capitão às recentes questões do Enem envolvendo “dialetos de travesti”. Bolsonaro prometeu que a prova deverá passar pelo crivo da presidência da república – ou de algum de seus ministérios – antes de ser aplicada para a massa de estudantes. A corporação entrou em choque.

Guerra contra estudantes representa suicídio

Apoiar-se na grande imprensa, na opinião de “especialistas” e no coro dos grandes artistas não parece ser a melhor estratégia a ser adotada – e o pleito recente demonstrara isso. Ainda assim, estes são, por ora, os únicos recursos narrativos que a esquerda dispõe para esse enfrentamento. Desmoralizada na arena política, torna-se frágil e ilegítima na seara do debate educacional. Fia-se na “liberdade de expressão”, como se a mesma não encontrasse limite algum durante o exercício da atividade letiva. É fraco – e muito pouco plástico – em uma guerra cujo adversário encontra , a todo instante, provas tão explícitas da má-fé dos doutrinadores.

Mas a esquerda não desistirá da luta. Nem pode. Perder as milhares de casas de doutrinação representa jogar no lixo décadas de luta e construção em prol de seu projeto de poder. É capitular, sem esforço, para um adversário difuso e indomável. A esquerda pelejará – inclusive irracionalmente – até que a última das salas de aula da última das escolas caia sob o peso denuncista de seus antagonistas.

Num momento em que as redações de jornal perdem importância e os palácios governamentais mudam de dono, a luta pelos corações e mentes das gerações mais jovens é um apelo quase messiânico da esquerda brasileira. Assistiremos, acima de tudo, a convocação de seus nomes mais ilustres e de suas forças mais subterrâneas na defesa de sua Jerusalém.

Resta saber se a tão debilitada educação pública irá resistir a esta guerra fratricida.

Renan Santos
@@RenanSantosMBL
Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre. Colunista às terças, e editor-chefe do MBL News.