As eleições legislativas passaram e as primeiras articulações nas diversas assembleias ao redor do país apresentam o mesmo padrão:  velhos políticos em choque tentando lidar com a “horda de bárbaros” recém eleita.

Historicamente negligenciadas pelo grande público, as assembleias legislativas ganharão um enorme holofote graças ao perfil pouco ortodoxo dos novos ingressantes. Youtubers, militares, cantores e ativistas se acotovelam pelos corredores de suas novas casas e terminam trombando com fósseis políticos que resistiram ao meteoro eleitoral de 2018.

A natureza midiática e polemizante da “turma nova” é um problema que os diversos “centrões” Brasil afora são incapazes de lidar. Um lado precisa de briga e polêmicas para sobreviver diante da efemeridade das redes sociais; o outro precisa de calma e silêncio para entregar seus votos de forma servil ao governador – não sem antes aproveitar-se de algum bom acordo que lhe acomode na base.

A receita para confusão torna-se ainda mais explosiva quando nos lembramos, também, que a esquerda, de modo geral, foi capaz de eleger bancadas ideológicas e renovadas. A dinâmica de poder entre estes 3 blocos promete uma engenharia completamente nova das forças políticas existentes.

O caso mais emblemático é o de São Paulo: os dois deputados estaduais mais votados são a polêmica jurista Janaína Paschoal – minha professora de penal na USP -, e Arthur Moledo do Val, um dos meus melhores amigos e icônico youtuber do mamãefalei. Junto a eles foram eleitos mais 14 deputados estaduais pelo PSL – compostos basicamente por ativistas de direita e agentes de segurança -, 4 representantes do partido Novo, e uma importante bancada de esquerda, ávida por espaço e voz num ambiente dominado pelo adesismo.

As forças novas à direita já batalham pela eleição de Janaína para a presidência da casa; a velha política, em estado de negação, finge que nada mudou e promete eleger algum baluarte do corporativismo. Torcem para que Márcio França, uma lenda nos corredores da Alesp,  torne-se governador e reconstrua a base governista em acordo com a esquerda. Já imaginam uma estranha oposição vinda dos novatos; os 20 deputados da direita não compõe maioria, mas tem buzz e peso eleitoral para manter os outros 3/4 em permanente estado de terror.

Em Brasília a situação não é diferente. Em recente visita à Câmara, presenciei parlamentares atônitos com suas derrotas eleitorais; descobriram da pior maneira que emendas e fundo eleitoral não se transformam em voto como passe de mágica. Confidenciaram comigo “acho melhor passar em um concurso para policial. Ou virar delegado do Ibama. Com uma patente, me elejo para o que quiser na próxima…

Seus colegas sobreviventes não encontram-se em estado muito melhor. O sufoco que passaram serve de prenúncio para o ocaso de suas carreiras – e eles sabem muito bem disso. Gastarão os tubos com agências de marketing web e feiticeiros de ocasião prometendo lhes transformar no próximo Kim, Joyce ou Marcel. Alguns, no silêncio de seus travesseiros, sonham em ser rebatizados com o sobrenome Bolsonaro. “100% de aproveitamento!”, dirão os mais afoitos. “Não há como falhar!

O sentimento atual, porém, não será capaz de transformar suas naturezas. Se por um lado não se converterão em Hasselmanns e Kataguiris, por outro manterão a raposice que tanta falta faz aos novatos. Enxergam, como presenciei em conversas pelo salão verde, oportunidade para se firmarem como esteio da governabilidade na gestão Bolsonaro.

 A tese tem sentido: os quadros eleitos pelo PSL são, em sua maioria, inexperientes e espetaculosos. Outros tantos reproduzem um corporativismo classista herdado de suas categorias profissionais. Num cenário em que os relatores das grandes reformas saíram derrotados – inclua aí Darcísio Perondi (MDB/RS) e Rogério Marinho (PSDB /RN) -, quem tem experiência política e bagagem legislativa leva vantagem. Vantagens, eles imaginam.

Grande expoente dessa filosofia, Rodrigo Maia ambiciona a presidência da Câmara e oferece à Bolsonaro um terreno fértil para as reformas de Paulo Guedes. Sinaliza, de boa vontade, que colocará em pauta a votação pelo fim do estatuto do desarmamento. E aguarda, pacientemente, que o PSL lhe conceda os votos que o mantenham na presidência da Casa, sem sustos nem sobressaltos.

Este é, talvez, o grande desafio do Bolsonarismo. A escolha por um acordo com o Centrão soará eficaz no primeiro momento, e eventualmente permitirá que medidas essenciais para o novo governo – como a reforma da previdência – sejam aprovadas no primeiro semestre de 2019. Mas as contradições entre o modus operandi adotados pelos novos ingressantes e a velha política de Maia & cia não poderão ser ignoradas. Tão logo temas prementes como a reforma política e alterações na lei penal pululem pela casa, e as juras de amor eterno se transformarão em conflito armado – com baixas para ambos os lados.

A complexidade do novo momento sugere que as composições tradicionais da velha política sejam substituídas por fórmulas menos engenhosas e mais republicanas, como as bancadas temáticas e a transferência de popularidade entre atores políticos – algo que Bolsonaro sabe fazer com maestria. A escolha por nomes advindos deste novo momento pode soar arriscada, mas permite no legislativo uma inflexão mais aguda na direção do modelo político adotado pelo executivo.

Temo, a bem da verdade, que uma composição com o Centrão termine por manter o legislativo em descrédito, especialmente diante de uma população histérica e ávida por mudanças. Bolsonaro sabe que precisa entregar resultados condizentes com a expectativa gerada ao redor do seu nome – e a política tradicional tem conhecimento disso. Tão logo a primeira crise se avizinhe e os sorrisos convidativos se converterão em grunhidos de hienas e urubus, prontos pra se alimentar da carne nova no pedaço.

O futuro presidente não tem vocação para presa; trabalha sempre no ataque, custe o que custar. A estratégia, até o momento, foi eficaz contra os adversários da esquerda e os concorrentes do tucanato. Veremos como funciona contra os sobreviventes do velho congresso que ainda se arrastam pelos corredores de Brasília.

Renan Santos
@@RenanSantosMBL
Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre. Colunista às terças, e editor-chefe do MBL News.