Do lado de fora, isso foi o que vimos e ouvimos na posse de Bolsonaro

No dia 30 de dezembro de 2018, só se falava de um assunto na capital do país.

 5 de janeiro de 2019 | 11h42
Por Francine Galbier

No dia 30 de dezembro de 2018, só se falava de um assunto na capital do país. O forte esquema de segurança era evidente com a quantidade de carros da Polícia que circulavam por toda área, aumentando mais o clima de medo de um possível atentado contra a vida de Jair Bolsonaro. Apesar da dificuldade para achar um hotel às vésperas, e dos comentários de que tudo estava lotado, a impressão ainda era de uma cidade deserta.

No dia 31, vendedores com apetrechos para o evento já estavam pela Praça dos Três Poderes atendendo os novos consumidores que chegavam para conhecer o local e tirar fotos com os militares que ali estavam. Até o final da tarde, algumas dezenas de patriotas falavam até em acampar no gramado em frente ao Congresso para virar o ano. Mas a ideia foi tolhida pelo clima frio e chuva que começava a cair. Arrisco dizer que, das milhares de pessoas que foram assistir a posse, boa parte deve ter passado o ano novo como a nossa equipe: na estrada.

Em primeiro de janeiro o clima já era diferente. Tanto o dia estava quente como parecia uma festa de copa do mundo, com o Brasil na final. Milhares de pessoas circulavam com camisetas em verde-amarelo que traziam Bolsonaro 17 nas costas, entre outras estampas variadas com opções de paletas de cores completas. Um homem vestia uma cabeça gigante de Bolsonaro, servindo como uma espécie de animador de festa que fazia a alegria da criançada, tipo Mickey Mouse. Tinha chaveiros, adesivos de “Eu fui na posse”, identidades, faixas presidenciais, bandeirinhas e lembrancinhas para presentear amigos. Também tinha comida: pastel, cerveja, churros, pipoca, sorvete, refrigerante. Tudo isso próximo de dois pixulecos gigantes de Bolsonaro que estavam na rua que descia o Conic e serviam como fundo para fotos em família. Aliás, fui repreendida por usar esse termo. Disseram que pixuleco era ligado a Lula. Só que após a Rodoviária, todas as vendas estavam proibidas. O dono de um carrinho de sorvete da Kibon me contou que os militares estavam apreendendo a mercadoria de quem passasse do limite permitido para as vendas. Os vendedores locais não pareciam muito felizes com isso.

De fato, o esquema de segurança foi muito rígido para todos. Passamos por três revistas até a frente do Congresso, onde Bolsonaro subiria a rampa. Na primeira revista já avisavam que era pra deixar pra trás bolsas, pochetes, garrafinhas de água, cigarro, isqueiro, desodorantes, etc. Ao lado das grades iam se formando amontoados dessas coisas pelo chão. Jornalistas reclamavam da limitação para transitar pelos espaços. Cada área tinha uma credencial diferente. Se você estivesse credenciado em um espaço, não poderia passar para outro.

No auto-falante, uma voz masculina dizia que era a festa da democracia. A página de humor Corrupção Brasileira Memes classificou como “PatriotaPalooza”. E sabe que faz sentido a brincadeira? Tinha todo tipo de gente, mas foi possível destacar que a maioria eram famílias de classe média e classe média baixa. Todos ressaltavam que tinham ido de graça. Ao contrário do que os pessimistas – como eu – acreditavam, não houve conflitos com a militância da esquerda, que sequer apareceu. “É esquisito. Pode ser porque vão tentar algo contra o Bolsonaro e eles já sabem…”, disse uma senhora ao refletir acerca da ausência da oposição.

Durante a cerimônia do translado e cortejo presidencial, todos comentavam sobre os significados do rito, mesmo sem conseguir assistir. Um homem que aparentava estar na casa dos 50 anos acompanhava a cerimônia por um rádio e informava todos os novos movimentos de Bolsonaro. Os que escutavam, comemoravam a cada novidade como se alguém tivesse feito um gol.

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Salva de 21 tiros. Fotos @vitorliasch

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Quem roubou a atenção foi a primeira-dama. Michelle Bolsonaro discursou antes do marido, e em libras. Falou especificamente com a população deficiente auditiva e amoleceu o coração até mesmo dos opositores ferrenhos que já a classificam como “Bolsonaro favorita”. Vejam só: é a primeira-dama mais empoderada da história do país.

Mas a mídia de esquerda só noticiava o flope dizendo que o evento não tinha sido maior que o de Lula em 2003. O que acontece é que as multidões estavam dispersas e circulando. Quem levou criança pequena não conseguiria ficar muitas horas debaixo do sol quente, sem água, sem banheiro, sem comida. O mesmo vale para quem está perto dos 60 anos. Outros estavam “aproveitando a festa” como se fosse micareta: os atendimentos foram em maioria por embriaguez. “E o Queiroz?”, perguntávamos. A resposta era um mix de “se errou, vai pagar”, “onde estava o COAF no mensalão?”, “por que não falam dos outros assessores?”.

Conversei com um senhor chamado Mohammed, um muçulmano dono de um dos hotéis do setor hoteleiro que não estava nem um pouco contente com a presença do primeiro-ministro de Israel na sua cidade. Ele disse que não tinha lotação e que chutava no máximo 20 mil pessoas em Brasília. Falei que estimavam 115 mil. “Mentira!”, respondeu  em tom de voz mais alto. “Isso aí é tudo mentira! Jânio Quadros sim era um líder que arrastou multidões”, completou com olhar saudosista.

Na noite seguinte ainda tinha gente andando pelos gramados em torno do Congresso, Planalto, Esplanada dos Ministérios e STF. Estávamos de carro quando vimos que havia uma projeção no prédio do Congresso. “Somos lésbicas e vamos resistir”, dizia uma das frases. Estacionamos. Fui até a van que projetava as mensagens e perguntei quem era o responsável. Um português simpático respondeu que foi contratado pelo grupo “All Out”, um coletivo LGBT que estava protestando contra o novo presidente. “Já fiz trabalho para os dois lados. Aqui manda quem pagar”, disse o português entregando o cartão do seu pequeno negócio. Logo chegou a Polícia Legislativa e pediu pra parar a projeção. Os policiais me confirmaram que era a primeira ocorrência de ato contra o novo governo.

Um casal estava no local também. O homem fazia uma live e perguntou aos policiais se o grupo tinha autorização, eles disseram que não. “Não tem autorização. Daí amanhã vão ficar de mimimi”, disse para a câmera. Chamei o casal pra conversar. Se chamavam Erica e Messias Almeida, casados e moram em São José dos Campos. Donos de uma página chamada “A Verdade Nua e Crua”, eles viajaram para Brasília porque a posse era um acontecimento histórico para o Brasil. Perguntei se eles achavam que as pessoas iriam continuar acompanhando a política e eles afirmaram que sim.

Sobre o Queiroz, não acreditam que a história possa prejudicar a imagem do novo presidente e esperam que ele dê o exemplo punindo os que erraram “independente de quem for” e questionaram  os motivos da mídia só falar do ex-assessor de Flávio Bolsonaro.

 Sobre a quantidade de pessoas na cidade: “Acho que 115 mil é pouco. Deve ter dado, no mínimo, uns 400 mil”, disse a esposa.