No dia 2 de dezembro de 2015, o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aceitou a denúncia por crime de responsabilidade contra a ex-presidente do PT Dilma Rousseff, apresentada pelo procurador aposentado Hélio Bicudo e pelos advogados Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal. O episódio teve seu desfecho final em 31 de agosto de 2016, com a cassação do mandato de Dilma.

Mas para entender a história é preciso retornar a junho de 2013, quando os brasileiros insatisfeitos com o governo tomaram as ruas do país após um aumento de 20 centavos na tarifa de ônibus da cidade de São Paulo. Era um protesto chamado pelo Passe-Livre, que ganhou proporções muito além da bandeira reivindicada gerando uma onda de revolta que se espalhou por todos os estados da federação. Foi ali que a queda de Dilma começou. “O gigante tinha acordado”, mas logo voltaria a dormir porque naquela época ainda não havia a polarização que conhecemos hoje, e as pessoas que foram às ruas perceberam que estavam perdidas e precisariam de um direcionamento se quisessem promover alguma mudança no país. Ainda não havia quem as guiasse.

Protagonizando as maiores manifestações da história do Brasil, o MBL começou na verdade com três pessoas na pequena cidade de Vinhedo quando os irmãos Alexandre e Renan Santos e o funkeiro Pedro Deyrot resolveram abrir um escritório e definiram a primeira empreitada: a campanha de Paulo Batista a deputado estadual em São Paulo. Pra produção da campanha, os três fundadores chamaram outros amigos e conhecidos que estacionaram no pequeno espaço alugado na Avenida Brigadeiro Luis Antonio. No final de 2014, com o desenrolar da Operação Lava Jato, o MBL já tinha ganhado status nas redes sociais e acabou virando a chave que abriu a cassação de Dilma Rousseff ao colocar milhões de brasileiros na rua, dessa vez com um objetivo claro: retirar o PT do poder.

E é essa história que Alexandre Santos e Frederico Rauh resolveram contar no documentário que mostrará como o Movimento Brasil Livre surgiu, protagonizou o processo de impeachment e conseguiu retirar o partido mais corrupto do país do poder. O trailer foi exibido pela primeira vez para cerca de 2.000 pessoas no encerramento do segundo e último dia do IV Congresso Nacional do MBL, que aconteceu nesse sábado, 24, no WTC, em São Paulo.

Assista ao trailer:

“Não vai ter golpe!”

“Meu interesse por vídeo e cinema é desde moleque”, diz Alexandre, que aos 15 anos criou um canal no Youtube, e mesmo a rede social não sendo tão popular naquela época, conseguiu produzir vídeos amadores que chegaram a ter mais de um milhão de views. “Com o tempo eu parei um pouco, perdi esse contato, mas depois que tive algumas aventuras trabalhando com meu pai e irmão vi que não era muito minha área trabalhar com empresa, fábrica, e resolvi voltar pro que era – digamos assim – um ‘tesão de infância”. Alexandre se matriculou no curso de Cinema, mas não gostou e logo largou a FAAP, mas não abandonou o cinema. Continuou com a produção de vídeos e no ano seguinte, em 2013, começou a trabalhar na área do audiovisual de forma decidida: era isso que ele queria fazer.

Frederico também começou a se interessar pela área bem cedo. “Desde criança, quando tinha que fazer um trabalho mais elaborado na escola, eu sempre fazia um vídeo. Edito desde os meus 10 anos, comecei com aquele movie maker, que era o que tinha. Fazia vídeos de fita cassete com os meus amigos. Sempre gostei muito de filmar”.  Os primeiros trabalhos foram como fotógrafo. “Eu gostava muito de tirar fotos e estava fazendo publicidade, então queria trabalhar com direção de arte só que vi que tinha muita concorrência e aí eu lembrei: pô, por que eu não vou trabalhar com cinema? Então comecei a fazer um curso de direção de fotografia para cinema na Academia Internacional de Cinema e durante esse curso comecei a trabalhar de bico em algumas filmagens, fazendo assistência de direção de arte, de fotografia, e foi em um desses trabalhos que eu conheci o Alexandre.” Foi aí que o Frederico se juntou a NCE, produtora que o Alexandre abriu em 2013.

E a política?

“Meu interesse por política… eu nem sei como começou porque sempre teve, minha família acompanhava bastante então eu sempre fui ligado a isso. Mas foi em 2013 a primeira vez que eu uni vídeo com manifestação. O Renan liderou uma manifestação contra a PEC37, que queria tirar os direitos do Ministério Público de investigar, eu gravei, o vídeo viralizou e foi lá que teve a primeira parceria política com vídeos entre eu e o meu irmão. E partir daí ligou uma luz na gente e surgiu a ideia: por que a gente não cria um escritório voltado pra cultura mas com uma visão de direita, uma visão liberal, e isso foi o embrião do MBL. Foi nessa época que eu conheci o Pedro, apresentei ele pro Renan e a gente montou o escritório.”

Em maio de 2015, o Movimento Brasil Livre marchou até Brasília levando o pedido de impeachment de Dilma Rousseff para ser protocolado na presidência da Câmara dos Deputados. “A ideia do documentário começou na marcha. Os eventos que tiveram antes, em 2014, a gente gravou mas pensando só no evento. Mas quando a gente fez a marcha, a gente falou: meu, a gente tem que fazer um documentário disso”, conta Alexandre, que continuou captando imagens do que viria depois.

O documentário foi feito de forma totalmente independente. “É um processo longo e difícil. Feito na unha por mim e pelo Fred”, conta Alexandre. “O Guilherme Fiuza ajudou a organizar as ideias, no final de 2017, com uma série de reuniões. Ele elaborou essa coluna cervical do documentário até porque não tem como ter roteiro, você tem uma espécie de uma guia, e a partir daí você vai montando ele.” O cineasta teve dificuldade em encontrar bons profissionais no audiovisual que sejam de direita. “As vezes o cara nem é de esquerda, mas tem medo de participar, de por o nome, essas coisas. E também tem as tradicionais dificuldades financeiras.”

“O processo de financiamento foi 100% privado, mas ainda não acabou. Ainda vou ter que fazer uma última bateria de arrecadação que é para finalização, para fazer toda produção do áudio, correção de cor e alguns outros detalhes. O material tem duas horas então vai exigir um aporte de dinheiro considerável. Provavelmente vou abrir campanha de arrecadação e produzir algo interessante para levantar o dinheiro de financiamento”, explica Alexandre, que pretende continuar documentando conflitos políticos. “Seja uma Venezuela da vida, com Maduro, ou um conflito político religioso… eu quero algum dia pega uma câmera e ir pra outro país, pra um ambiente mais tenso, gravar coisas – digamos assim – mais pesadas”.

A distribuição e o lançamento do filme ainda não foram fechadas, portanto ainda não tem data marcada. “O que posso falar é que até março de 2019 estará pronto, mas a veiculação ainda não sei”, explicou o cineasta, que pretende enviar o filme para festivais e fazer exibição em cinemas também. “Fazer exibições em cinemas, nas principais capitais. Mas isso também depende da distribuidora”.

Sobre o cenário audiovisual brasileiro, Alexandre avalia que muita coisa tem que mudar. “Tem que acabar essas leis de incentivos. O mercado brasileiro tem que parar de ser preguiçoso e conseguir criar uma capacidade de produzir bons roteiros e produzir bons filmes que vão vender. Pra isso tem que ter interesse da iniciativa privada porque uma empresa tem que querer dar o dinheiro não somente pelo incentivo fiscal, mas porque vai ter retorno financeiro. Precisa tirar a mamadeira dos caras. Tem que usar o cérebro. Ainda não vejo a direita tendo espaço no cinema.”

Para terminar, perguntei pra ele quais foram os momentos mais marcantes do processo de produção: “O que fica mais na minha cabeça são os momentos da época. A marcha, com certeza. Estar naquele momento, vivendo aquilo junto… foi do caralho. E o acampamento. Teve um dia específico que os índios falaram que iriam aparecer lá às 5h30 da manhã para tomar café da manhã, e a gente falou: ‘vamos varar a noite e a gente aproveita e grava o nascer do sol. Foi um momento que a gente registrou imagens realmente incríveis. Foi muito legal porque você vê ali Brasília, sol nascendo, um monte de barraca, a galera acordando, numa situação totalmente bizarra. Foi muito louco. Poder estar gravando a galera de cima do caminhão alí no último voto do impeachment… enquanto tava todo mundo se abraçando, eu tava lá gravando.”

Francine Galbier
@francinegalbier
Atriz, estudante de Direito, repórter e editora-chefe do MBL News.