Por Pedro Deyrot e Francine Galbier

Nascidos em 1988, na zona sul da cidade de São Paulo, os primos Ricardo e Felipe já demonstravam afinidade com a música desde a infância. Aos 12 anos, começaram a compor letras para o primeiro grupo que formaram juntos: o “Armageddon”, que mais tarde foi rebatizado de “Mensageiros da Profecia”. Aos 14 anos, se batizaram na Igreja Apostólica Renascer em Cristo e começaram a pregar o evangelho através do RAP. Hoje, os dois que se identificam com a direita, usam de suas rimas para combater a esquerda e o politicamente correto.

Criticando cotas raciais, Cuba, Venezuela, Lei Rouanet e o PT, o single “Direita Vou Ver” chamou a atenção do grande público. Lançado oficialmente no dia da votação do segundo turno, 28 de outubro, o vídeo clipe, que começa com falas de Eduardo Jorge sobre as reais intenções da esquerda antes da instauração do regime militar e trechos de “Nossos pais”, de Elis Regina, já está perto de completar 1 milhão de views no Youtube. “O mais interessante dessa música é que recebemos várias mensagens de pessoas que choraram com ela. Já era um grito que tava preso na garganta do povo”, conta Felipe.

Ricardo e Felipe, os Mensageiros da Profecia @ Foto de Vitor Liasch

“Essa música começou bem antes de tudo. Ela já existia nas nossas ideias”, conta Ricardo ao responder sobre como foi fazer uma música de direita. “Na minha opinião o rapper parou de representar o povo e começou a representar grupos políticos. O povo ficou órfão, e muitos ainda nem sabem porque se distanciaram do povo, que continua sendo conservador, continua acreditando em valores como a meritocracia… e o rapper ainda tá viajando nas ideias do playboy de esquerda, que nunca foi em uma favela, que não sabe como funciona, e quer falar o que o povo tem que fazer”.

Por si só, um RAP de direita já é algo inovador, não é por acaso que “Direita Vou Ver” está tendo uma média de 100 mil views por dia no Youtube. “A resposta do público foi impressionante”, diz Ricardo ao contar que o lançamento da música foi como um desabafo particular. “A gente lançou em um dia, e no outro recebi o áudio de um pastor do Rio Grande do Sul que estava chorando. Ele falou essa frase: ‘tudo que eu queria falar, os caras cantaram’. Então, na verdade, a música dá voz ao povo, que está lá nos guetos, nas favelas… e os políticos de esquerda sempre usaram da favela, sempre prometeram pra favela, mas nunca tiraram a favela da condição de favela”, critica Ricardo.

“O mais interessante dessa música é que ela chegou em alguns lugares que tinha uma ideologia diferente. É a mesma coisa de você falar a verdade dentro da casa dos caras, e eles tem que engolir calado porque não tem argumento contra tudo aquilo. É a verdade”, diz Felipe ao avaliar que o RAP perdeu sua essência.

Os dois comentaram sobre o discurso de Mano Brown no comício do PT no Rio de Janeiro, quando o rapper disse que o Partido dos Trabalhadores iria perder porque não conseguia mais falar a linguagem do povo e por isso teria que voltar pra base. “O que o Mano Brown falou ali é o que a grande maioria dos que sempre escutaram Racionais queriam ouvir dele. Ninguém queria que ele deixasse de ser petista ou deixasse de pensar como ele pensa, a gente queria que o Brown fizesse uma autocrítica, e ele fez. E foi o único que teve coragem de olhar pros caras e dizer: se vocês erraram, vocês vão pagar”, diz Ricardo. “O equívoco que ele [Mano Brown] cometeu é achar mesmo que o PT queria falar a linguagem do povo. O PT está pouco se lixando para o povo. O máximo que o PT vai fazer é tentar enganar o povo”, completa.

Felipe e Ricardo, os Mensageiros da Profecia @ Foto de Vitor Liasch

“Os valores de direita estão presentes na arte e no RAP”

“No princípio o RAP olhava os problemas da comunidade e expressava isso na música. Mas hoje em dia os problemas não são os mesmos de quando o RAP começou. Eu moro em uma favela e sei que o maior medo do favelado não é da Polícia chegar e esculachar tudo. O maior medo dele é sair as quatro horas da manhã pra trabalhar e ser roubado no ponto, é saber se vai sair com um currículo debaixo do braço e descolar um trampo pra conseguir levar um rango pra casa. Então o discurso tem que ser outro. O RAP há muito tempo perdeu a essência de falar a verdade daqueles que moram nos guetos”, analisa Felipe.

Questionados sobre o que acham que falta acontecer pra surgir uma cena de RAP que se assuma de direita, uma vez que o discurso da favela mudou, Felipe alerta que isso já está acontecendo. “Na realidade essa cena já existe, muitos rappers já mudaram o discurso, mas não é lucrativo pra certos segmentos políticos. O que falta, na verdade, é dar evidência pra esses grupos que estão levando rango pros moleques, indo na Fundação Casa dizer que o crime não é o caminho e nas casas de recuperação. Essa cena já existe, mas existe às margens”.

O público pode esperar muitas novidades dos Mensageiros da Profecia para o próximo ano. O objetivo da dupla é claro: acabar com a hegemonia da esquerda. “Desde o princípio, nosso lance sempre foi abordar a verdade. O que as pessoas podem esperar da gente é isso: sempre estar falando a verdade”, finaliza Felipe.

Escute o single “Direita Vou Ver”, dos Mensageiros da Profecia:

Entrevista: Pedro Deyrot
Redação: Francine Galbier

Francine Galbier
@francinegalbier
Atriz, estudante de Direito, repórter e editora-chefe do MBL News.