Neste domingo, 04, estudantes de todo Brasil saíram de casa para realizar o Exame Nacional do Ensino Médio. De acordo com a Metrópoles, esta foi a edição que teve o menor número de faltantes dos últimos tempos. 75,1% dos inscritos compareceram, totalizando 4.139.319 candidatos que disputam vagas no ensino superior. A segunda fase, voltada para questões exatas, acontecerá no próximo dia 11.

Pela manhã a internet já especulava sobre a possível militância de esquerda nas questões do primeiro dia, que é focado nas temáticas da atualidade – englobando ciências humanas e linguagens. Os alunos também fizeram uma redação argumentativa sobre o tema: “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.  A temática levantou um debate pelas redes sociais: a prova iria tratar sobre Fake News?

“Não. Pelo menos na minha prova o tema Fake News não apareceu em nenhuma questão. Os textos de apoio da redação eram mais sobre o que as empresas podem fazer no algoritmo delas para manipular a opinião pública”, disse o paulistano Danilo Geber. Com apenas 22 anos, seu objetivo ao fazer o Enem é “avaliar e buscar uma oportunidade profissional futuramente”.

“Não acho um método eficiente, ele avalia apenas um conhecimento decorado do aluno”, diz Danilo sobre o Exame. “O que precisa mudar é que ele [Enem] não seja considerado uma prova de vestibular”, analisa Danilo, que acredita que as provas de vestibulares devem “começar a pensar mais na individualidade de cada aluno”.

O cearense Carmelo Neto, 17 anos, ainda está terminando o segundo ano do ensino médio e prestou o exame apenas por experiência.  “Passei no ano passado, mas antes de fazer a prova a gente é obrigado a assinar um termo dizendo que não vai usar o resultado por não ter concluído o ensino médio”, conta o jovem. Ele pretende ingressar no curso de Direito na Universidade de Fortaleza. “É nota máxima de recomendação da OAB. Não quero federal. Meu pai, graças a Deus, tem condição, então vou escolher particular”.

“O tema da redação foi tranquilo. Falando de Marco Civil, escândalo do Facebook e um pouco de Fake News você tira nota boa! (…) Percebi na prova uma tendência a colocar medo com relação aos militares. Falando muito sobre autoritarismo. Os poemas da prova de português eram sobre ditadura, exílio…”, avaliou Carmelo.

Nicolas Carvalho, 19 anos, disse à reportagem que o tema da redação foi previsível. “Abre espaço para professores amargurados com a derrota eleitoral premiarem redações claramente de esquerda e anti-Bolsonaro”, avaliou o jovem, que disputa uma vaga para o curso de história. Relatou sobre suas impressões no Facebook:

“Resumo do ENEM, que fiz hoje (caderno rosa): 1. Umas dez perguntas feministas (uma delas, a pior, proveniente da Carta Capital, sobre as 23 Miss peruanas que usaram o concurso pra lacrar) 2. Meia dúzia de perguntas de militância negra 3. Os piores e mais desconhecidos poetas brasileiros nas perguntas de Literatura (todos eles lacradores, nenhum classicista) 3. Pergunta capciosa do Sto Agostinho, de um excerto de sua obra que questiona a eternidade (não colocaram o resto) 4. Umas três ou quatro perguntas de arte moderna esdrúxula e patética, principalmente aquela do body art 5. Uma questão anti-ionista 6. Outra pro-refugees 7. Outra do Eduardo Galeano vituperando contra o “futebol Nutella”, que segundo ele se tornou propriedade dos grandes chefões do esporte 7. Uma pergunta sobre futebol feminino que escreve que SUPOSTAMENTE as mulheres não tem o físico tão adequado quanto o dos homens para o esporte 8. Outra sobre um dialeto que LGBTs usam (??) 9. Uma que é o trecho de um livro sobre uma lésbica que vê sua vó beijar sua tia (claro que essa merda de livro é brasileiro) 10. Outra contra o Gilberto Freyre 11. Um tema de redação – manipulação digital – que vai favorecer os professores amargurados com a derrota a premiarem aqueles que foram, em razoável português, explicitamente anti-Bolsonaro.”

Nossa equipe teve acesso a uma das provas, a de cor amarela. Entre as questões que mais estão levantando polêmica entre as redes sociais está a de número 31, que trata sobre o dialeto secreto LGBT, mas para Nicolas é apenas uma pergunta “esquisita e dispensável”. “Tem coisas piores e mais condenáveis. Isso aí é só o mais inusitado”. O mais preocupante para ele foi a redação: “muitos alunos podem ter perdido a vaga na faculdade porque não esquerdizaram como o professor ressentido queria.”

Logo no início da prova, um trecho do romance 1984, de George Orwell, questionava sobre os perigos de um Estado Totalitário e como o controle se dá: (a) boicote aos ideias libertários. (b) veto ao culto das tradições. (c) poder sobre memórias e registros. (d) censura a produções orais e escritas. (c) manipulação de pensamentos individuais.

Não preciso nem descrever o trecho usado para que o amigo conclua que a última alternativa deve ser a correta. De qualquer forma, está correto.  Pena que a esquerda se esquece ao usar esse exemplo – ou finge esquecer – que o totalitarismo criticado por Orwell era com base no comunismo da União Soviética.

Outra questão, a 09, trata sobre a “estética do racismo”. O texto de apoio é sobre um artigo que discute a representação da mulher negra em produtos de beleza e a “idealização da beleza e do branqueamento a serem alcançados”. O argumento é que o “discurso midiático-publicitário dos produtos rememora e legitima a prática de uma ética racista”. Mais uma pergunta interessante: tratava sobre o caso das 23 candidatas à Miss Peru 2017, que apresentaram dados de feminicidio, abuso sexual e estupro no país no lugar das medidas de altura, peso, busto, cintura e quadril. Esses são só dois exemplos da militância feminista.

Teve até citação aos famosos e adorados “memes”:

Direitos Humanos e a agenda 2030 para desenvolvimento sustentável também foram defendidos na prova, em uma questão sobre os 70 anos da declaração Universal adotada pelas Nações Unidas.

A questão 70 abordava os conflitos territoriais de Israel. “Desde 1967, a esquerda sionista afirma que Israel deveria se desfazer rapidamente da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, argumentando partir de uma lógica demográfica aparentemente inexorável”, dizia o texto. “A preocupação apresentada no texto revela um aspecto da condução política desse Estado identificado ao(à)”, era questionado. A alternativa correta era a letra (b) – busca da preeminência étnica sobre o espaço nacional. Para Nicolas Carvalho, se trata de um anti-sionismo sutil “porque sugere que os israelenses são racistas”.

Para finalizar, uma questão sobre Santo Agostinho. “Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles que nos dizem: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? Se estava ocioso e nada realizava”, dizem eles, “por que não ficou sempre assim no decurso dos séculos, abstendo-se, como antes, de toda ação? Se existiu em Deus um novo movimento, uma vontade nova para dar o ser a criaturas que nunca antes criara, como pode haver verdadeira eternidade, se n’Ele aparece uma vontade que antes não existia?”, diz o trecho de Confissões. A questão certa, segundo os sites que liberaram gabaritos, é a (e) – interpretação da realidade circundante. Para Nicolas, se trata de uma questão “capciosa porque faz parecer que até ele [Santo Agostinho] está duvidando da fé cristã”.

“Não colocaram o resto da sua argumentação. Obviamente ocuparia muito espaço, mas seria o justo a se fazer”. Para ele abriu margem para uma interpretação de que o empirismo refuta a religião. “Colocar isso em uma pergunta de um dos maiores teólogos cristãos é desonestidade”, finaliza.

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Francine Galbier
@francinegalbier
Atriz, estudante de Direito, repórter e editora-chefe do MBL News.