A secundarista Nicole Siqueira, estudante do 2º ano do ensino médio, chamou atenção nesta semana após a repercussão de um desentendimento que teve com seu professor de química, Denny César Faria. O caso aconteceu na última quarta-feira, 14, no Colégio Estadual Marechal Cândido Rondon, em Campo Mourão, interior do Paraná. Na imprensa local foi divulgado que a jovem estava exigindo retratação do professor após ser constrangida em sala de aula em meio a um debate sobre a saída de Cuba do programa Mais Médicos.

“Eu gosto de conservar os costumes, acho importante. Todo mundo tem um pouco de conservadorismo em si. E sou liberal economicamente“, diz Nicole ao identificar como liberal-conservadora. Seu posicionamento político era de conhecimento geral. Justamente por isso que a jovem sequer precisou dizer de forma clara que discordava do discurso que estava sendo feito por Faria em sala de aula. Somente suas expressões faciais foram o suficiente para irritar o professor de química.

“Algumas outras vezes ele já tinha feito comentários, mas muito rasos. Eu já tinha conversado com o professor Denny. Ele tinha se posicionado a favor do Ciro no primeiro turno e a gente conversou muito bem. Por isso eu não esperava essa atitude do professor. As pessoas estavam cientes do meu posicionamento porque em outras ocasiões, em outras aulas, já teve assuntos políticos e eu sempre falei mais sobre o lado liberal e conservador”, relatou.

Nicole contou para o MBL News que o desentendimento partiu do professor:

“Até o momento em que ele expressou a opinião dele, não achei problema nenhum. Ele disse que estava indignado com a situação, só que citou fonte informativa, e eu não concordei muito com o posicionamento dele. Ele viu a expressão negativa no meu rosto e falou — Você não precisa ficar nervosa. (…) Uma pessoa que tem crise de epilepsia, tem dias que aguenta mais e tem dias que tá muito vulnerável a qualquer problemas de stress ou ansiedade.”

A estudante, que sofre de epilepsia, já tinha comentado com o professor sobre o seu problema anteriormente:

“Não sei se ele lembrou ou não, mas eu já tinha comentado por cima sobre o meu problema. Ele viu que eu estava ficando nervosa, tremendo, até quando ele resolveu me acuar na situação e eu não conseguia argumentar. Eu queria rebater o que ele dizia, principalmente porque o problema não foi o assunto político, foi ele querer interferir no meu pessoal. Ele não me conhece, e ele não sabe da minha história de vida pra me tratar daquela maneira. Como se porque eu sou bem vestida ou porque eu sou branca e tenho uma condição melhor eu não posso ser contra o que ele estava falando. E eu não estava contra o que ele disse sobre as pessoas pobres, eu estava contra o jeito como ele colocou a informação.”

Ao I44News, Denny Faria admitiu que abordou o assunto com a turma de Nicole, como em todas as salas que leciona química. Sendo uma “discussão que faz parte da autonomia didática do professor, que tem direito a crítica”. Sobre o Mais Médicos, disse que “os filhos da elite branca formados em Medicina não vão substituir os cubanos nos locais longínquos do país”.  Só que para Nicole o caso “não era bem assim” e “existia outros fatos”.

“A culpa da situação não é do presidente Jair Bolsonaro. Foi Cuba que negou o acordo. Os cubanos sofrem e isso já foi comprovado. Já conversei com cubanos. Já vi vídeos da Zoe Martinez contando como que é. Então eu sou contra a ditadura e também a venezuelana. Acho que essas pessoas tem o direito de ter uma condição melhor e de trazer suas famílias pra cá, e foi por isso que fiquei contra o professor mas decidi não me posicionar para não causar uma discussão maior por eu estar vulnerável naquele momento”, conta Nicole.

A secundarista é favorável ao projeto Escola Sem Partido. Já Denny, do lado oposto, acredita que o Escola Sem Partido criará a lei da mordaça.

“As pessoas não tem uma estrutura emocional para discutir em sala de aula, e isso depende muito do professor que aborda o assunto. Eu acho importante ser favorável ao ESP para não ter situações como essa. Mesmo que o professor não tenha naquele dia se posicionado como direita ou esquerda, ocorreu esse problema, que não deveria ser abordado dessa maneira porque a partir de um momento que vai pro pessoal e atinge uma pessoa, já não é mais uma opinião.”

Nicole não pensa em processar o professor, a não ser que ele continue causando conflitos com o caso. “Ele é um ótimo professor, só que nesse dia foi infeliz”, diz a estudante apesar de tudo que passou. Sentindo-se acuada para retornar ao colégio na próxima segunda-feira, ela recebeu diversos ataques de colegas pelas redes sociais:

“Muitos alunos no grupo da minha sala estão me xingando, me ofendendo, mas estão escolhendo muito bem as palavras porque acho que estão com medo de processo ou algo do tipo. No youtube, alguns criaram fakes para me xingar. Não sei como vai ser a partir do momento que eu entrar na escola, só que eu não vou abaixar minha cabeça. Não vou desistir. Tô ali para estudar. Eu to no fim do ensino médio então não me importo com o que eles falam. Alguns falaram que iriam prestar um boletim [de ocorrências] contra mim. Não sei com qual fundamento.”

A direção do colégio agiu de acordo com o procedimento. A diretora Rita Cássia Cartelli de Oliveira não estava presente no dia, sendo Nicole atendida pela orientadora que perguntou se ela gostaria de registrar ata sobre o ocorrido. “Ela [orientadora] achou muito sério o fato do professor dizer que ainda não estávamos em 2019 para poder denunciar.”

“Eu não estava gravando o professor, e nem pensei nisso. Mesmo se eu pudesse fazer aquilo, eu estava em uma situação de extremo nervoso e não estava conseguindo refletir muito. Tanto que muitas das coisas que ele foi falando, eu fui esquecendo. Quando você vai ter uma crise, você começa a perder o sentido do que está ao seu redor e você fica só focado no stress que você precisa controlar. Você acaba não escutando o que está a sua volta. Foi um momento que eu fiquei nervosa e falei alto sim, da mesma forma como o professor falou comigo primeiro. Me senti ofendida e constrangida. Ele não precisava mencionar fatores que ele não sabia sobre a minha vida em sala.”

Naquele dia tinha cerca de 8 alunos em sala de aula, motivo pelo qual Nicole acredita que o professor deveria ter sido mais flexível.

“Não acho tão errado ele expressar a opinião dele, desde que não ultrapasse os limites (…) Ele parou a aula dele simplesmente pra dizer que eu deveria respeitar a opinião dos outros, mas ele não respeito a minha opinião, a minha expressão negativa no rosto. Ele podia ter continuado a aula dele. Mas não, ele preferiu parar tudo pra falar algumas coisas pra mim.”

A jovem conta que não está se importando com os ataques que outros alunos do colégio estão fazendo pelas redes sociais, e que também está recebendo apoio de pessoas de fora. Neste domingo, 18, o MBL Estudantil se posicionou ao lado de Nicole e irá acompanhar de perto o desenrolar do conflito.

Francine Galbier
@francinegalbier
Atriz, estudante de Direito, repórter e editora-chefe do MBL News.