Na última quarta-feira, 5, o Brasil ficou horrorizado ao descobrir que o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, deu ordem de prisão a um advogado que falou o que a grande maioria da população pensa: o STF é uma vergonha.

O fato aconteceu durante um voo de São Paulo com destino a Brasília. Cristiano Caiado de Acioli, 39 anos, estava sentado próximo ao ministro e fez uma gravação de protesto com seu celular. Na filmagem é possível escutar Lewandowski, no auto de seu autoritarismo de toga, perguntando: “Vem cá… você quer ser preso?”. Abismado, Cristiano reage: “Chama a Polícia Federal então.” Assim que o avião pousou, Cristiano foi “preso” por um servidor de Lewandowski, que sequer era policial e não quis se identificar. Não foi informado dos motivos pelos quais estava sendo conduzido para a Superintendência da PF em Brasília. “Ele não quis me informar”.  Com o vídeo circulando pelas redes sociais, todo o país se sentiu ofendido pela atitude autoritária do ministro. No Twitter, a hashtag #MePrendeLewandowski chegou aos trending topics.

 Às 20h00 de ontem, o Movimento Brasil Livre de Brasília fez uma projeção nas paredes do arcaico prédio da Suprema Corte. “Esse é o prédio do Supremo Tribunal Federal. A gente tá aqui porque eles tem que encarar a verdade. O povo brasileiro vai lutar contra qualquer tipo de censura. Não vai ser na base da carteirada que eles vão impedir nossa liberdade de expressão”, diz Gabryel Rios, um dos coordenadores do MBL em Brasília.

“Criou-se agora o crime de opinião no Brasil. Basicamente, se você expressa a sua opinião, e se ela desagrada alguém que se acha um Deus que caminha sobre a terra, como o ministro Lewandowski, você pode ir preso. Isso é um absurdo. O Lewandowski está extrapolando todo e qualquer poder que a instituição do STF poderia dar pra ele. Isso não pode existir em uma democracia”, disse Pedro Deyrot, fundador e coordenador nacional do MBL, em um vídeo publicado no canal do movimento no Youtube.

Nossa equipe procurou Cristiano para saber como foi o fato, e ficamos surpresos ao descobrir que ele é um dos apoiadores do movimento. Abismado com a atitude de Lewandowski, o advogado relatou a ordem de prisão arbitrária e disse que se sentiu ofendido “enquanto ser espiritual, humano, cidadão, advogado e brasileiro”. Também contou sobre a postura da Polícia Federal durante a condução. “Foi um dia muito confuso”. De fato.

Leia a seguir a entrevista com Cristiano na íntegra:

Como foi que aconteceu a ordem de prisão? Qual foi a justificativa que te apresentaram?

Cristiano: “Eu não acompanhei a ordem de “prisão”, fiquei muito paralisado ao entender que iria ser preso por ter feito a minha manifestação pontual e respeitosa ao Ministro. Em Congonhas eu notei apenas que ele deu uma ordem de chamar a Polícia Federal. Quando eles entraram na aeronave, eles apenas me questionaram sobre o que estava ocorrendo. Eu disse que nada e lhes contei que apenas havia feito uma manifestação pessoal e respeitosa ao Ministro de acordo com os limites constitucionais. Em Brasília, assim que o avião pousou, quem primeiro adentrou na aeronave e veio me “prender” foi uma sujeito que não era policial, mas se fez passar por um sem sê-lo. Eu perguntei porque eu estava sendo preso, ele não quis me informar. Eu lhe questionei quem era ele, que também não respondeu isso.”

Como foi o processo de atendimento na Polícia Federal?

Cristiano: “Os policiais que me conduziram na viatura da PF até a superintendência foram muito corteses e educados comigo o tempo todo. Eles diziam que não estavam me prendendo, mas em nenhum momento me deram qualquer opção que não fosse a de ser conduzido para a minha detenção. Uma vez na Polícia Federal eu vivenciei um dia muito confuso. Ninguém sabia me explicar a razão, ou fulcro legal da minha detenção. Em nenhum momento me apresentaram uma razão que justificasse a minha detenção. O atendimento da Polícia Federal foi muito moroso, e como disse anteriormente, muito confuso. Ninguém sabia explicar absolutamente nada.”

O que você achou da atitude do Lewandowski? Você irá tomar medidas jurídicas contra o ministro, como, por exemplo, pedir o impeachment dele?

Cristiano: “A atitude do Min. Lewandowski me ofendeu enquanto ser espiritual, ser humano, cidadão, advogado, brasileiro. O episódio deixou patente a vilipendiação dos direitos mais básicos, houve de forma estranha a utilização de toda a estrutura do Estado para reprimir a um anseio democrático. Justo de alguém a quem muitos gostam de enaltecer como um Ministro garantista. Para a minha pessoa não foi dada nenhuma garantia. Nenhum indivíduo deve ser tolhido de seu direito mais puro de se expressar, e a liberdade deveria ser a regra máxima para àqueles que nenhum crime cometeram, para a sociedade. Uma conduta de impor o medo à crítica não é característica de uma democracia, é ferramenta de regimes despóticos. Que país é esse onde temos medo de tudo e agora devemos ter medo até de ter vergonha?”

Sua ação gerou muita comoção. Como você se sente sabendo que as palavras dele se tornaram um símbolo contra a sombra de injustiça que o STF vem lançando sobre o Brasil?

Cristiano: “Eu me sinto imensamente realizado em poder ter dado uma pequena colaboração para injetar coragem, alegria, otimismo e patriotismo em todo o nosso país. As pessoas precisam sim se indignar, elas tem o direito absoluto para isso, e em nosso caso, possuem também todas as razões para tanto. O que me causa tristeza é ver um povo achando normal viver na inversão de valores e submisso ao medo e à apatia. A sociedade brasileira precisa de bons símbolos e precisa lutar para fazer prevalecer uma simbologia que nos erga. O pensamento tem poder, as palavras muito mais, e delas saem grandes e pequenas atitudes que alteraram o universo. O Supremo Tribunal Federal precisa ser repensado, assim como outras instituições, pois os seus componentes não respondem nem a Deus. A Justiça surge não apenas da lei, mas de uma correspondência entre os julgadores e os julgados. Quando se tem uma corte composta por 11 ilhas sem qualquer comprometimento com o distante continente das pessoas com as suas dores e realidade, esse quadro sempre impedirá que tenhamos bons julgados que nos encha de orgulho. Eu não diria que o STF vem lançando uma sombra de injustiça, eu acho que dado todos os acontecimentos, o STF é a própria escuridão.”

O que você achou da projeção da frase “O STF é uma vergonha” nas paredes do prédio do Supremo?

Cristiano: “A projeção da frase “O STF é uma vergonha” nas paredes do prédio do Supremo é um gesto de quem desafia o medo, que jamais deveria ser vivenciado dessa forma em uma democracia; é uma frase de esperança e de conforto para todos que tem otimismo, é um raio luminoso que vai muito além do sentido da visão, é acima de tudo uma porta para que a própria Justiça possa escapar da escuridão a qual ela estar presa. A Justiça quer servir, ela quer ser justa, ela quer realizar. Essa projeção é uma homenagem singela à Justiça, foi um ato de solidariedade a cada brasileiro que acha o absurdo normal, àquele que está sem voz, é sem dúvida alguma algo engasgado na garganta de todos nós.”

Você acha que sofrerá retaliações?

Cristiano: “Eu não acho que eu irei sofrer retaliações. Eu já estou sofrendo, desde ontem, ao ser detido sem crime. É uma luta extremamente desigual. A minha vida pessoal está vasculhada, a minha existência profissional ameaçada. Em todos os campos eu estou enfrentando uma batalha. Toda a estrutura do Estado está sendo usada contra a minha pessoa. Desde ontem eu sou um inimigo do Estado. E quanto ao Ministro nada… Com todo o respeito, eu preferiria estar no lugar de David. Faz parte, não existe vitória sem luta. Faria tudo mil vezes e repito, eu tenho vergonha do STF. Eu queria dedicar as palavras a todas as lideranças que estão nos inspirando a ter coragem. Parabéns pela sua luta MBL.”

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O Movimento Brasil Livre continuará acompanhando os desdobramentos do caso e dando o suporte necessário para garantir que a liberdade de expressão não será vítima de nenhum aspirante a ditador de toga.

Francine Galbier
@francinegalbier
Atriz, estudante de Direito, repórter e editora-chefe do MBL News.