Por Renan Santos

Ele sim! – Disseram 57 milhões de brasileiros na tarde deste domingo, 28. Diante de uma massa incrédula de jornalistas e militantes, o povo comum que paga as contas do país fez sua primeira escolha autônoma e verdadeira após anos de resignação forçada. Não foi Bolsonaro que se elegeu presidente; foi um povo que o carregou, contra a máquina, a mídia, o dinheiro e o sistema, até a rampa presidencial.

Bolsonaro jogou no lixo todas as fórmulas prontas ditadas pelos magos do marketing político. Seguiu seu instinto, evitou racionalizações desnecessárias, não se comprometeu com lutas que lhe fizessem perder tempo. Quando confrontado com as reformas do governo Temer – pauta importante da agenda da nova direita – deu de ombros e fingiu não ser com ele; sua ideia fixa era a presidência da república, e dela não recuou um milímetro sequer.

A construção de seu “mito” – alcunha que recebeu das redes sociais – se deu paralelamente ao fenômeno de desconstrução do petismo e nascimento da direita brasileira. Os milhões de anônimos que tomaram as ruas com o MBL encontraram no capitão de artilharia o rosto que faltava ao movimento político. Bolsonaro congrega, perante o imaginário público, as características de honestidade, austeridade moral e distanciamento das elites que tanto cativaram os indignados de verde e amarelo.

Suas características, projetadas ou não, sempre se fizeram presentes nas falhas do sistema político. Aécio é corrupto? O mito não é. Temer não enfrentou a crise de segurança? O mito meterá bala. Dória se mostrou artificial? O mito é autenticidade em pessoa. Nunca teve meias palavras para encarar uma imprensa subserviente à agenda da esquerda; fez uso de xingamentos e palavrões na hora de encarar o politicamente correto e transformou ícones do esquerdismo festivo em degraus para sua ascensão.

Engana-se quem atribui a “polarização” e ao “ódio nas redes” a vitória do deputado carioca. Enquanto mito, Bolsonaro apenas projeta valores e características comungados pelo brasileiro comum. Não construiu-se – mas fez-se construído – como depositário legítimo da indignação popular sufocada pelo politicamente correto. Reprimiu-se o que era comum, negou-se o que era natural. Bolsonaro é o vingador do aluno contra o professor militante; o campeão do homem castrado pela moral da grande imprensa; o exterminador de bandidos sem medo de represálias. É, por assim dizer, uma resposta natural (e esperada) a uma repressão ideológica imposta por nossas elites.

É na manhã desta segunda-feira (29) que o mito tornar-se-á homem, de carne e osso, falível e humano. As expectativas geradas com sua eleição se confrontarão com os desafios impostos por uma realidade dura e complexa. O povo que o elegeu quis chutar o traseiro do PSDB, MDB e PT – e o fez de forma clara e irretocável. Resta a ele, liderado por seu capitão, construir um novo pacto político que devolva esperança a um país cabisbaixo e combalido.

Renan Santos
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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre. Colunista às terças, e editor-chefe do MBL News.