Por Renan Santos

Certos truques, de tão manjados, ganham contornos cômicos que os impedem de ser levados a sério. É o que ocorreu recentemente, com a tal “onda nazista” que curiosamente se espraiou pelas páginas de jornais, sites de notícias e propagandas eleitorais do PT.

De súbito, seguidores pardos e nordestinos de Bolsonaro converteram-se na Schutzstaffel do capitão-candidato; inebriados pelos discursos inflamados de seu líder, passaram a atacar mulheres, negros e gays pelas ruas de nossas cidades, conforme relatos emocionados de suas vítimas nas redes sociais.

A onda de boataria – tão combatida pelas “agências de checagem” – fora prontamente aceita nas redações do bananal. Articulistas da Folha revezavam-se com apresentadores da Globonews no frenesi histérico diante da escalada de violência protagonizada pelo Nazi-Bolsismo. Com ares de Hanna Arendt, denunciavam o ódio e violência sistemática dos agressores. A “nova era” das armas e do preconceito – conforme relatado em um dos dramas que viralizou pelas redes – estava inaugurada.

Não durou muito até que o fenômeno fosse utilizado pela campanha de Fernando Haddad. A sincronia entre as denúncias de Mônica Bergamo e os inserts na campanha do ex-prefeito era comovente; vanguarda que são, anteviam o nazismo tropical com a acurácia de uma Mãe Diná. Gênios reconhecem-se mutuamente, imagino. Deve funcionar pra eles.

O problema é que faltou combinar com a plebe. Esmagado pela tirania de uma criminalidade sem freio, que rouba, estupra e mata na ordem de 60 mil homicídios por ano, o brasileiro comum não tem paciência para os curiosos causos de agressão política noticiados pela imprensa. Além de inverossímeis, soam pueris demais para sua realidade; qualquer morador de nossas periferias já viveu sofrimento pior que a menina que viu seu pai bebendo Pitú enquanto manuseava uma pistola.

A distopia nazista não rendeu frutos eleitorais. As pesquisas demonstram céu de brigadeiro para o candidato do PSL, que deverá ser eleito presidente com larga vantagem no próximo domingo. Percebe-se que a narrativa passou a ser convenientemente ignorada, em prol do suposto “caixa 2 do whatsapp” alardeado pela Folha de São Paulo. E as vítimas do bolsonazismo, como ficam? Serão esquecidas? Justiça não será feita?

Na manhã desta quarta-feita, a perícia da Polícia Civil do Rio Grande do Sul apurou que a jovem que fora marcada com uma suástica invertida por agressores bolsonaristas – pelo fato de portar uma camiseta do “#EleNão”-  em verdade, praticou uma auto-mutilação. A grande vítima da juventude hitlerista provou-se uma farsante neurótica, e sua história entra para o seleto rol de mentiras que já inclui os pichadores de suásticas em igrejas (que também vandalizam material anti-Bolsonaro) e os racistas atemporais que rabiscam preconceito em muros de faculdade – só que em idos de 2010.

Descreditada perante a opinião pública, resta a imprensa apelar para o mínimo de dignidade que lhe resta e reconhecer o False Flag aplicado nas últimas semanas. Dando vazão a uma onda de boataria – quando não inventando completamente alguns fatos -, terminou por escavar as últimas pás de credibilidade na vala que os separa da opinião pública. Assumir a responsabilidade pelas mentiras propagadas seria o primeiro passo para a reconstrução moral de uma instituição tão importante para o funcionamento da democracia. Espera-se, ansiosamente, por esse sinal de lucidez em meio ao festival de insanidade que virou a imprensa brasileira.

Renan Santos
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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre. Colunista às terças, e editor-chefe do MBL News.