Tempos estranhos para a esquerda brasileira. Os eternos detentores das virtudes democráticas terminaram por descobrir que o povo – ora o povo! – não comunga de suas crenças e valores. Mais do que isso: a provável vitória acachapante de Jair Bolsonaro – com mais de 60% dos votos válidos – demonstra que o discurso do militar não ocupa extremos; a retórica de Bolsonaro é mainstream e deve ser considerada, para o desgosto de nossa intelligentsia, como parte central do imaginário político do país.

A esquerda gritava golpe e defendia a radicalização da democracia; bradava pelos 4 cantos suas virtudes enquanto escondia para debaixo do tapete as desventuras de seus colegas venezuelanos. Por aqui, finge ignorar os próprios esquemas de subversão democrática disfarçados de corrupção. O petrolão está vivo na memória de todos. Antes fosse apenas roubo bilionário; jantaram a propina e queriam de sobremesa nossas instituições.

Se a coerência não resiste a uma pesquisa no google, restava ao menos o discurso. Bolsonaro irá implementar uma ditadura! Gays serão perseguidos! Voltamos a 64! Campanhas milionárias foram construídas tendo como aliados os mesmo de sempre. Imprensa, artistas, militantes e sindicalistas, todos irmanados, gritavam a plenos pulmões: Ele não! Ele nunca! Até Roger Waters emprestou sua voz para o coro dos democratas. Não haveria como dar errado.

Mas deu. Milhões de tiozões com Rider no pé e Zap na mão desconstruíram a descontração alheia. Feriram de morte seu discurso, implacavelmente, sob o manto do anonimato nas redes sociais. Ironicamente, a democracia venceu os “democratas”. Sem sangue, morte ou pichações. Apenas com voz. E vez. E memes pixelizados. Muitos memes pixelizados. Isso nunca pode faltar.

Atônita, restou a esquerda o procedimento usual: se não pode com a democracia, mande-a às favas. E tome-lhe PSOL, partido do socialismo e “liberdade”, pedindo censura ao WhatsApp. E Gleisi Hoffman acusando o adversário de caixa 2. É tudo tão tragicômico que parece corrente de WhatsApp redigida em caixa-alta. Mas não, caros amigos. A verdade da nossa esquerda é mais absurda que a mais lunática das Fake News. Jogo que segue.

Renan Santos
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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre. Colunista às terças, e editor-chefe do MBL News.