Você não comprará armas nas Casas Bahia; ou “Sobre o decreto e seu valor simbólico”

28 de Outubro de 2018. Circulavam pelas redes alguns vídeos curiosos de eleitores que exerciam seu voto

 16 de janeiro de 2019 | 0h51
Por Renan Santos

28 de Outubro de 2018. Circulavam pelas redes alguns vídeos curiosos de eleitores que exerciam seu voto – em Bolsonaro, claro – na base da pistola. O “17, confirma!” era orgulhosamente digitado pela ponta da arma, como ato de rebelião. Além disso, memes dos mais diversos reforçavam o novo Brasil que surgia: bandeira no carro, revólver na cintura e Deus no coração. Para o inferno com o politicamente correto e a bandidagem! O tempo do homem de bem havia chegado!

Será?

O decreto emitido pelo presidente da república sobre o tema das armas serviu como banho de água fria para muita gente. No imaginário popular, Bolsonaro permitiria que todo cidadão de bem tivesse uma arma de grosso calibre para enfrentar a bandidagem; porte e posse seriam autorizados, e a nova era contaria com garrafas de Pitú e cápsulas de munição convivendo harmoniosamente na mesa do brasileiro.

A iconografia do Bolsonarismo reforçava isso: o gestual das “arminhas”, marca registrada de sua campanha, ilustrava um Bolsonaro sorridente e atrevido, apontando para o alto com suas pistolas imaginárias. Era a demonstração simbólica da capacidade de ação do homem-mito construído pelas redes: confiante, implacável e ciente do próprio poder. Era também um vingador, que lideraria o povo contra corruptos e quadrilheiros.

A babaquice politicamente correta da esquerda, que tratou de julgar o gestual como “incentivo à violência”, terminou por elevá-lo; ao tentar ressignificar o vingador, soaram fraudulentos – e intensificaram ainda mais a crença na missão divina do candidato. Mesmo eleitores de centro, avessos ao tema do armamento civil, passaram a ver “Bolsonaro e suas armas” como instrumento de realização política de seus anseios por justiça.

Não deixa de ser curioso que o funk carioca fez uso de associação similar em suas letras, “empoderando” (odeio esse termo) o criminoso ao discorrer sobre seu arsenal. A mais emblemática das obras nesse sentido é o famigerado “Rap das Armas“, dos MCs Cidinho e Doca, que tornou-se, inclusive, hit mundial no verão de 2009:

Morro do Dende é ruim de invadir
Nós com os alemão vamos se divertir
Por que no Dende eu vou dizer como é que é
Aqui não tem mole nem pra Dre
Pra subir aqui no morro até a Bope Treme
Não tem mole pro Exército, Civil nem pra Pm
Eu Dou o maior conceito para os amigos meus
Mas morro do Dende, Também é Terra de Deus
Vem um de Ar15 e outro de 12 na mão
Vem mais um de pistola e outro com 3 oitão
Um vai de Uru na frente, escoltando o camburão
Vem mais dois na retaguarda mas tão de crok na mão.
Amigos que eu não esqueço, nem deixo pra depois
Lá vem dois irmãozinhos, de 762
Dando tiro pro alto só pra fazer teste
De Inaintratec Pisto, Uzi ou Winchester
Aqueles são bandidos ruim e ninguém trabalha
De Ak47 na outra mão a metralha
Esse rap é maneiro eu digo pra vocês
Quem é aqueles caras de M16
A Vizinhança dessa massa já diz que não aguenta
Nas entradas da favela já tem ponto 50
E Se tu tomar um “Pá” será que você grita?
Seja de ponto 50 ou então de ponto 30
Mas se for alemão, eu não deixo pra amanhã
Acabo com safado dou-lhe tiro de Fazan
Por que esses alemão, são tudo safado
Vem de Garrucha velha dá dois tiro e saí vuado
E se não for de revólver, eu quebro na porrada
E Finalizo o rap detonando de granada!

A relação de Bolsonaro com as armas permitiu ao cidadão de bem uma sensação similar àquela experimentada pelos traficantes e criminosos na cultura do “funk proibidão” . Em um país tomado pelo crime organizado e  mais de 60 mil homicídios/ano, uma reação – ao menos simbólica – é não apenas compreensível, é necessária. Foi elemento constitutivo e fundamental do fenômeno político que levou Bolsonaro ao poder. Inclui-se, também, na lógica de rebelião masculina diante de uma modernidade corrosiva que trata a masculinidade como tóxica e ultrapassada.

O “mito” elevou-se à condição de presidente, e voltou a ser homem tão logo a realidade se impôs. Bolsonaro tem limitações – não apenas enquanto político, mas também derivadas da natureza do cargo. Terá de lidar com um congresso rebelde, com facções internas no governo, e uma imprensa vingativa. E, diante destas limitações, terá de fazer política, atividade que demonizou ao longo dos últimos anos. Nem seus fãs mais extremados engoliram o choque de realidade com o apoio do PSL a Rodrigo Maia. O apelo ao “estratégico” e ao “pragmático” pareceu vazio após anos de propaganda mítica em redes sociais.

Resta-nos a pergunta: terá soado humano demais o decreto de Bolsonaro? É uma peça conservadora, tomada de cautela, sem grandes avanços. O cidadão de bem permanece limitado por um conjunto de regras extremamente burocráticas para a obtenção da licença; é especialmente tímido vindo de alguém que alimentou expectativas tão profundas no imaginário político brasileiro. Reclama-se nas redes: ora, se Bolsonaro falou tanto em revogar o decreto de Lula, por que não o fez agora que tem a caneta? Por que mais um recuo?

Confirmando-se a sensação de frustração, teremos mais um passo na direção da humanização do presidente perante seus eleitores. E essa é uma boa notícia. Política não é exercício de fé. Mitos e deuses são extraordinários; políticos são frágeis e limitados. E têm de ser! Quem aspira ao poder total aspira à deificação. Stálin era infalível; estava onipotente em sua ditadura, onipresente em sua polícia política. Não é o caso do presidente brasileiro. Bolsonaro não tem pretensões ditatoriais e é fruto legítimo de nossa democracia. Verdade seja dita, não foi ele quem alimentou a imagem de mito que lhe acompanha. Sente-se mais à vontade no figurino de homem comum chupando manga ou comendo leite condensado com pão. É sincero nessa pretensão.

O legado simbólico, porém, não é dos melhores. Primeiro, no âmbito narrativo. O critério relativo aos índices estaduais de homicídios retira o debate do âmbito moral e dos direitos fundamentais e o coloca na vala comum do utilitarismo. Não tratamos mais do direito de defesa, mas sim de uma política pública atrelada a dados estatísticos. É uma perda e tanto. O Sou da Paz e os desarmamentistas em geral rodam em falso no argumento utilitarista, retorcendo estatísticas, pois esse, ora bolas!, é o pouco de espaço que lhes resta neste debate. A direita jamais poderia cair nesse reducionismo tolo!

E segundo – e ainda pior – pois joga um banho de água fria nas pretensões coletivas de empoderamento (olha eu usando esse termo novamente…) do homem comum, tal como ocorre nos Estados Unidos. Fica a burocracia e o estado babá exigindo regras mil para o cidadão, enquanto os verdadeiros heróis – os homens fardados garantidores da lei – fazem seu bom combate à bandidagem que assola o país. Nada de novo por aqui: Bolsonaro é um homem da caserna, e como tal deposita mais fé na máquina hierárquica do exército que no cidadão comum defendendo suas posses.

Não à toa, parte de sua fanbase se derrete pelo semblante ranzinza do general Santos Cruz – um dos mais corporativistas do governo. É a figuras como ele que pretendem terceirizar suas esperanças, em detrimento de uma construção verdadeiramente liberal que traga poder fático e simbólico para o cidadão comum. Não era esse o aspecto mais revolucionário da candidatura de Bolsonaro?

Você queria armas. Vai se contentar com este meme.

No fim das contas, ficou o gosto amargo na boca de muita gente que esperava algo de ousado nessa área. Não, caro amigo, você não poderá bancar o Dan Bilzerian lustrando seus rifles e ostentando suas gostosas. Ninguém comprará pistola nas Casas Bahia. Eram memes, apenas memes – prontos para ativar o homem de ação escondido neste coração de brasileiro. Funcionaram nas eleições. Evanesceram na política real.

Na prática, o arsenal do Rap das Armas continuará restrito aos mesmos de sempre: o crime organizado e o exército brasileiro. Ao menos, lhe sobra a Pitú – sempre ela! – para consolar a desilusão.