Renan, o derrotado

Entenda tudo o que rolou no Senado.

 2 de fevereiro de 2019 | 18h20
Por Ricardo Almeida

Desde ontem, a eleição da presidência do Senado se tornou uma pantomima demoníaca. Houve tudo o que não se esperaria na alta câmara de uma república, teoricamente garantidora da representação dos Estados federativos através dos mais altos quadros do legislativo. O que vimos? Confusão generalizada, picuinha, supostos golpes regimentais, supostos contragolpes, até o ápice da noite – o roubo da pasta da mesa diretora pela senadora Kátia Abreu. Hoje, a senadora – mulher de grelo duríssimo, segundo os critérios do presidiário Lula – veio à baila ironizar a situação em um tweet completamente insano (veja aqui), além de ter dado flores ao Davi Alcolumbre, mostrando-se charmosa, apesar de feroz (veja aqui).

A manobra de Renan havia sido usar o edital da SGM. O edital, que dispunha sobre as regras da condução da mesa, trazia duas disposições delicadas. De um lado, exigia que o presidente da sessão fosse um integrante titular e não suplente. De outro, impedia que ele pudesse ser candidato e, simultaneamente, conduzir a sessão. As duas cláusulas tiravam da disputa Davi Alcolumbre (DEM-AP), já tornado o grande rival de Renan. Acrescentava-se a isso o manifesto temor da velha raposa: o voto aberto. O voto aberto lhe traria graves dificuldades para se eleger pela quinta vez à presidência da casa. Mas quem se oporia a ele?

Mostrando a que veio, o senador do Amapá demonstrou frieza exemplar na condução dos trabalhos ontem. Lembrando o estilo do “príncipe suiço”, Eduardo Cunha, Davi realizou ousada manobra, algo equivalente a dar um cavalo de pau em uma rota molhada a 90km por hora. Revogou o próprio edital da SGM e dispensou o secretário-geral da mesa, Luiz Fernando Bandeira de Melo Filho, se colocando, assim, para conduzir a sessão de modo ao voto aberto passar e para disputa-la, de modo a Renan perder. Como esperado, a adesão ao voto aberto foi esmagadora. Porém, não foi unânime.

Essa era a deixa para o contra-ataque. Já estava se formando gigantesca confusão. Impropérios, dedo na cara, bate-boca de todos contra todos, finuras típicas da nossa jovem democracia. Um verdadeiro cenário hobbesiano se construiu, onde o senador era o lobo do senador e a propriedade pública virava a propriedade privada de uma pasta, sob posse nada mansa nem pacífica da sra. Kátia Abreu. A impossibilidade de resolver o imbróglio levou ao encerramento da sessão sem a votação sobre a presidência. Tendo sido adiada a votação principal, neste meio tempo, Renan foi ao STF, levando pedido para manter o voto secreto. Dias Toffoli considerou a unanimidade  critério fundamental para a alteração da regra que dispunha o voto secreto. Logo, fica o voto secreto. Obviamente, a patuscada havia sido armada para que, na calada da madrugada, Calheiros conseguisse angariar decisão do ministro do STF contra o voto aberto.

Raia o dia seguinte. Agora já presidida pelo aliado histórico de Calheiros, José Maranhão, a sessão de hoje conheceria um protagonismo de manobras curiosas. Primeiro, os antagonistas de Renan, divididos em várias candidaturas – as do Major Olimpio, Simone Tebet, Espiridião Amin, Reguffe e Alvaro Dias – resolvem, com as exceções de Amin e Reguffe, abdicar da candidatura própria em favor de Davi contra Golias. Cada discurso trazia uma justificativa particular para a adoção dessa estratégia. Em outro golpe estratégico, a ala anti-Renan, ao invés de manter o voto secreto, resolve assinar o voto em cédula e dizê-lo em alto e bom som. Com isso, desmoralizariam quem se mantivesse votando secretamente (já que a população se revelou, majoritariamente, favorável ao voto aberto).

E eis que vem, finalmente, o discurso do dia. Renan Calheiros irá falar.

Assisti o discurso com misto de deleite pela habilidade e repulsa pela opaca cara de pau do grande maquinador alagoano. O discurso dele foi forte, poderoso. Dividiu-se em quatro eixos montados com notável inteligência política. 1) Defendeu as reformas liberalizantes para vencer o atraso do país, com isso acenando a Guedes e ao mercado 2) Citou o telefonema com o presidente para mostrar que tinha relação republicana e até afetuosa com Jair Bolsonaro 3) Se colocou como defensor maximus da Carta constitucional. E, finalmente, a cereja do bolo, 4) Apresentou-se como guardião da tradição contra a voga de renovação do Senado, decerto o golpe oratório que calou mais fundo nos senadores antigos da casa, temerosos de saírem da vida pública na esteira de uma tão drástica mudança dos quadros políticos.

Malgrado a perspicácia do discurso, os votos abertos sugeriam que ele sairia derrotado. Novo golpe se anuncia. Imitando as eleições de DCE, onde as urnas são, frequentemente, emprenhadas (para quem não sabe, é a gíria para colocar mais votos nas urnas do que votantes), aparecem misteriosos 82 votos. Detalhe: são 81 senadores. É claro que alguém, intencionalmente, colocou um voto a mais nas urnas. Surge nova discussão. Teremos nova votação ou anularemos dois votos? Após muitos apartes raivosos, acalorados debates e discursos cínicos sobre a vergonha da casa, vence a opção por fazer nova eleição. Essa seria a segunda do dia.

Assim começa. A votação está ocorrendo a contento, até a manifestação mais surpreendente dos últimos tempos. Renan Calheiros sobe a tributa e grita a sua desistência do pleito. As redes sociais explodem. Todos comemoram. Ninguém entende absolutamente nada.

Porém, como o grande player resolve sair do jogo, faz-se mister nova votação. Esta será a terceira votação do dia. A terceira e última votação anuncia a vitória definitiva de Davi Alcolumbre com 42 votos cravadíssimos. Ele terá a presidência do Senado. Renan foi derrotado. Glória a Deus!

Renan foi derrotado? Será que ele ainda tem algum trunfo na manga? Não sabemos ainda. O que sabemos bem é que o Senado demonstrou, mais uma vez, a verdade da frase do personagem operístico, o cínico Falstaff: tutto è burla nel mondo. Se tudo é brincadeira no mundo, eu não sei. Mas, no Senado tudo parece ser realmente uma amarga e sinistra brincadeira, onde nós somos os palhaços.