O que está havendo com Vélez Rodriguez?

O episódio atual dá mais uma mostra de confusão na equipe de Vélez

MEC
 27 de fevereiro de 2019 | 14h30
Por Ricardo Almeida

A última notícia sobre o Ministério da Educação é a confissão de um erro de comunicação (veja aqui) (e aqui). Ela se soma a muitas outras derrapadas esquisitas, que tivemos o desprazer de acompanhar no noticiário. Nem seria preciso dizer que sempre buscamos conferir os órgãos oficiais, por reconhecer a má vontade da mídia. Além disso, quando nos podem acusar de acumpliciamento é recomendável boa dose de precaução, fazendo-nos mais cuidadosos com os jornais do que o MEC com os seus avisos. Contudo, os fatos bateram à porta. A notícia do equívoco é verdadeira, assim como era verdadeira aquela carta, cheia de deslizes de português e sem formatação, contra um jornalista mendaz; e também o foi — para o maior espanto — a deselegante comparação, feita pelo Ministro, dos viajantes brasileiros com um bando de ladrões.

O episódio atual dá mais uma mostra de confusão na equipe de Vélez. É lógico que uma recomendação para os alunos cantarem o hino não atenta contra qualquer princípio moral. Eu mesmo cantava o hino nos intervalos das aulas, e não me recordo de ter ficado traumatizado por isso. Tampouco a deferência por símbolos pátrios já é sinal de fascismo; se assim fosse, todas as democracias do mundo até os primeiros decênios do pós-guerra seriam fascistas, pois em todas elas o sentimento de patriotismo se encarnava em símbolos nacionais os mais variados, dentro e fora das escolas. O problema da carta está em dois outros detalhes, como se pode ver, desnecessários, haja vista o MEC tê-los retirado após as previsíveis críticas. O arremate de uma carta oficial com uma frase patriótica não seria problema algum, se ela não fosse um slogan de campanha, o que talvez não fosse inconveniente para o twitter do vizinho bolsonariano, mas certamente é para uma publicação oficial de um Ministério. E o segundo detalhe — o mais grave — é a recomendação, sem aparentes ressalvas quanto ao direito à privacidade, de se filmarem os estudantes cantando os hinos. Não é usual que um liberal não tenha sensibilidade para perceber a óbvia infração ao direito de privacidade envolvida na recomendação de filmarem estudantes sem o seu consentimento explícito.

Essas coisas me deixam consternado. Eu me pergunto, surpreso: o que está havendo com Vélez Rodriguez? Para mim, à época da nomeação, ele havia sido o melhor dos indicados. Saudei-o com alegria, pois conhecia dele os escritos sobre liberalismo, castilhismo e filosofia brasileira, embora os tivesse lido pouco. Mas, já havia colhido, aqui e acolá, informações pertinentes para minhas próprias pesquisas, bem menos interessantes do que as dele: assim, li um pouco do que ele escrevera sobre os liberais ibéricos, sobre a filosofia brasileira do século XIX, sobre a justa necessidade de se pensar o Brasil desde a teoria social florescida em solo nosso. Conhecia, por alto, sua dura opinião sobre o populismo, fenômeno de modo algum restrito ao Brasil, mas cujas expressões governamentais marcam a história da América Latina. Com esses interesses, era natural a filiação do colombiano ao famoso grupo de Miguel Reale, que no Instituto Brasileiro de Filosofia congregava nomes do porte de Vicente Ferreira da Silva, Vilém Flusser, Renato Cirell Czerna e Antônio Paim, em um ambiente intelectual verdadeiramente democrático e saudavelmente eclético. Assim me parecia grande sorte do Brasil em ter finalmente um ministro da educação que conhecesse de educação e de Brasil.

Minha percepção tem mudado. Não que lhe sejam negados todos os méritos. É mérito dele os princípios da sua visão, cuja aplicação nas políticas públicas, espero, não fique aquém dela, tais como a de que universidades formam as elites da pátria; que o ensino doméstico é uma tradição imemorial dos povos a ser defendida; que a disciplina constitui o esteio da criatividade e não o seu inimigo. Destacam-se de tal visão estas qualidades inegáveis, tanto mais louváveis quanto raras, já que a maior parte dos pedagogos do país ainda guarda o atávico preconceito das esquerdas, forte o suficiente para bloqueá-la como a trava no olho. Também acredito nas suas boas intenções. Mas, na noite recidiva de Brasília, nosso erudito liberal Dr. Jekyll se transmuta no feroz populista Mr. Hyde e começa a se comportar como um deputado da direita xingling, não como o competente estudioso que ele é.

A observação se impõe pelo cotejo dos trabalhos pregressos de Vélez Rodriguez com a sua performance ministerial. Para se dar uma rápida noção da qualidade desse conteúdo, nos bastaria citar o artigo sobre o liberalismo doutrinário, no qual Vélez mostra-se dotado de ampla erudição histórica liberal (veja aqui). Neste artigo, seguindo os caminhos de Antônio Paim, ei-lo transcendendo o limitadíssimo repertório da direita brasileira ao comentar a tradição francesa de Benjamin Constant e dos liberais doutrinários. Chama a atenção a observação, en passent, sobre o “desavergonhado populismo” da versão contemporânea do castilhismo, o que mostra que ele não é simpático ao populismo, já que falta de vergonha não é bem uma qualidade. Se queremos ampliar os horizontes da prova, o mesmo elogio se pode fazer do livro Castilhismo: Uma Filosofia da República, de cujos capítulos lidos tirei lições valiosas, ainda insuficientemente refletidas. Com grata surpresa pude acompanhar a agradável prosa no bem plasmado estilo em português, que se exibe nos vários ensaios a respeito da filosofia brasileira. Ele também demonstrou notável coragem ao denunciar, como já o fizera Antônio Paim, a armação ominosa da CAPES contra o programa de mestrado e doutoramento em filosofia brasileira (veja aqui).

Como se pode constatar, trata-se de personagem de escol. Quando um homem com tais atributos começa a se atrapalhar, das duas uma: ou ele não foi talhado para o cargo ou então está se deixando levar por fatores dispersantes. Ainda tenho apostado na segunda opção, assim como tenho esperado que as admissões à sua equipe melhorem. Pois, atualmente, o que tem caracterizado o MEC é o desejo de parecer uma quitanda do populismo de direita; se a direita fala contra os comunistas, lá se vai uma cartinha mal feita contra o comunista; se a direita quer o hino, lá se vai uma recomendação pelo hino em uma carta com slogan de campanha; se a direita exige declarações altissonantes, lá se vai mais uma declaração bombástica para gerar burburinho. A pior coisa para a direita é ensejar críticas válidas. Deixemos a mídia mentir contra nós e a combatamos por isso; não a façamos falar a verdade contra nós.

Eu não tenho a menor influência sobre o governo, sendo apenas um desconhecido escrevinhador. Mas creio que faria melhor o MEC enfrentar os problemas da educação com sobriedade e técnica em vez de se prestar a esse papel. Penso assim pelo bem do país, e pelo bem da própria biografia intelectual de Ricardo Vélez Rodriguez, da qual não sou guardião mas incipiente admirador. É preciso ter cuidado para não se passar à história como o infeliz personagem de uma pantomima. Felizmente, ainda é cedo para qualquer juízo peremptório sobre o enredo.