“Laranjal do PSL” detona expurgo de ex-aliados. Entenda o método

Ala ideológica usa crise para subjugar companheiros de campanha

PSL
 14 de fevereiro de 2019 | 14h23
Por Renan Santos

O governo Bolsonaro não está vivendo um alvorecer dos mais tranquilos. Acamado pela cirurgia de retirada de sua bolsa de colostomia, o presidente viu seu vice e o ideólogo Olavo de Carvalho trocarem curiosas lisonjas em praça pública. O “caso Queiroz” deu munição para a oposição, ao passo que o tão aguardado fim do estatuto do desarmamento redundou em mais bate-cabeça que festa em sua base de seguidores.

O problema maior, porém, reside nas brigas faccionais que insistem em tornar-se públicas, como num gigantesco Big Brother pago com dinheiro público. As investidas no twitter dos filhos do presidente — em especial do frenético Carlos Bolsonaro — denunciam uma tática política no mínimo heterodoxa para os padrões brasileiros. Ladeado por Olavo, Carlos emite suas fatwas contra “falsos direitistas” e aqueles que não se encaixam no projeto de poder familiar. Eis aí o padrão incompreendido pela imprensa: o método de cocção que carboniza Bebianno e Mourão é regra, não exceção.

Digo isso com a autoridade de quem já foi atacado pela turma de Carlos. Não foram poucas as vezes que o MBL foi insultado com argumentos de menina ciumenta como “oportunistas” e “prostitutas do sistema’. Faz sentido: éramos vistos como pedra no sapato do seu projeto de poder. E aí, meu amigo, não tem espaço pra conversa mole. Não pode haver divisionismo na direita! Todo poder ao Soviete do Clã! 

Se o gabinete de Flávio tinha como padrão as nomeações de Queiroz, o de Carlos operava as redes da família. O vereador carioca contava com um time afiado para a construção da imagem de seu pai — em especial com o talento de Matheus “Bolsonaro Zoeiro”, grande nome na área — e na destruição de figuras dissidentes na direita. O método ganhou força com a aproximação da família a Olavo de Carvalho, também conhecido por seus expurgos e ataques pessoais. 

Veio a vitória, e com ela a composição de um governo. Novas figuras aproximaram-se; Moro, Guedes, generais e civis. Lideranças que dedicaram a vida à empreitada eleitoral — Julien Lemos, Paulo Marinho, Gustavo Bebianno e outros tantos — passaram a ser vistos como concorrentes. Os deputados eleitos, chancelados pelo presidente, tornaram-se oportunistas do dia pra noite. Não que não o fossem! Mas fica a pergunta….por que tão rápido?

O grupo de Carlos e Eduardo considera-se responsável pela eleição do presidente. Não estão exatamente errados. Alimentados por Olavo de Carvalho e Filipe Martins, acreditam ser a vanguarda da “revolução brasileira”, ou algo que o valha. Uma mentira descarada: pouco fizeram no processo de impeachment de Dilma Roussef, na prisão de Lula ou nos embates pelas reformas. 

Tomados pelo medo de perderem seu protagonismo revolucionário e a ambição de construir um novo país, atacam e destroem todos aqueles que se configuram como ameaça ao seu redor. Mourão? Comunista safado, deve ser destruído. Bebianno? Afastou Carlos da comunicação, tem que sumir. Paulo Marinho? Já cumpriu seu papel, estava muito próximo. Um a um os parceiros políticos do clã vão sendo descartados, para desconcerto da militância.

Aproxima-se o momento em que irão abandonar Bivar e o PSL. Comenta-se que pretendem lançar um “verdadeiro partido de direita”, alinhado a Steve Bannon; alguns nomes ungidos serão atraídos, e a família teria controle do aparelho partidário. Onyx participa da empreitada — e não seria surpresa vermos alguns nomes do DEM ideológico (Lupion, Caiado, Mandetta etc.) tomando parte na nova legenda. Assim, o núcleo ideológico expurgaria os “oportunistas” do seu círculo de eleitos, configurando-se como força política pura e inconteste.

O escândalo do laranjal de Pernambuco sucede-se ao de Minas Gerais; as aventuras abestalhadas da Direita Xing-Ling complementam-se ao show de horrores de suas declarações públicas. O clima de farsa que toma o partido do presidente serve de instrumento para a purgação dos impuros. É mais oportunidade que problema

Enganam-se aqueles que crêem que o fiasco dos satélites oportunistas atingirá o planeta Bolsonaro. Na prática, apenas fortalece a cruzada de seu núcleo central.