Chicoteiem o Andreazza!

Críticas não são boas quando destrutivas e violentas.

imprensa
 4 de fevereiro de 2019 | 19h03
Por Ricardo Almeida

Estamos assistindo a mais um ilustrativo episódio das desventuras da direita com seus formadores de opinião. É o caso da execração ao Carlos Andreazza, editor da Record e comentarista político na Jovem Pan. Recentemente, Andreazza deu uma declaração bastante taxativa sobre a inabilidade do Onyx Lorenzoni em conduzir as manobras para colocar Davi Alcolumbre na presidência do Senado. O argumento básico dele é que era inviável para o DEM – um partido de médio porte – ter as presidências das duas casas e ainda três ministérios, em um governo relativamente magro no número de ministérios.

Ora, o argumento é bem razoável. Eu mesmo achei uma manobra muito estranha, temeroso de o DEM ficar muito gordo e os demais partidos, muito magros (o que, aliás, aconteceu e pode gerar consequências desagradáveis no equilíbrio partidário). Andreazza errou porque foi peremptório, afirmou taxativamente um resultado que ninguém sabia. É bom sublinhar que ninguém sabia, pois anteriormente à desistência de Renan Calheiros o clima entre os bolsominios mais exaltados oscilava entre a raiva, a esperança e o medo. Ninguém estava confiante. Ninguém sabia o resultado. Mas, segundo bolsominions, Andreazza foi “arrogante”, descascou Onyx, fez previsão e errou. Ponto. Daí as pessoas, revoltadas pelo erro e pelo tom, resolveram “zuá-lo” nas redes sociais. É justo.

Mas, será mesmo que foi assim? Vejamos outros episódios. Contrastes são educativos.

Há certo tempo, Carlos Andreazza especulou que talvez Jair ganhasse no primeiro turno (veja aqui). Como se pode ver, ele não ganhou. A especulação, porém, foi uma análise de cenário, mais modesta e, sobretudo, e se diferenciou da análise sobre Alcolumbre pelo fato eloquente de ter sido favorável ao governo. Quais são os comentários ao vídeo?  Que Andreazza é o único bom jornalista da Jovem Pan. Que ele deveria ir pro Pingos nos Is, que ele é inteligente, está entendendo tudo, é esperto, é lúcido, o único que se salva. Só faltaram dizer que ele era um gênio, bilionário, sexy e deveria ser dublê do Homem de Ferro.

No entanto, ó senhores bolsominions, ele errou também! Parecia haver chances, mas elas não se concretizaram. Agora imaginem se ele tivesse afirmado taxativamente que o governo levaria no primeiro turno como o fizeram outros formadores de opinião. Será que depois de o governo não levar haveria um rage gigantesco, com twiteiros acusando-o de roubar o emprego da mãe Dinah, de ser o Ialorixá Andreazô a jogar seus falsos búzios?

A resposta é não.

Então, vamos começar a falar a real. O motivo central da execração de Andreazza não é porque ele errou ou porque ele não tem sido “imparcial”. É porque ele errou, aparentemente, contra o governo Bolsonaro. É porque ele apreciou negativamente a habilidade do ministro do governo Bolsonaro. As pessoas não querem jornalistas imparciais. Elas querem ler opiniões parciais a favor de Bolsonaro. E se alguém insiste em dar outros motivos para os ataques à imprensa de direita – acessórios, sempre, tais como: ele fala em tom arrogante (como se o grande Olavo fosse o príncipe dos humildes), ele é muito taxativo, ele não é “imparcial” (sei…), ele é a falsa direita – essa pessoa está se iludindo ou vindo com marotice para esconder a motivação básica da raiva.

Acho natural, embora exagerado. É natural que um governo muito legitimado tenha apoio. Mas, o pessoal continua flanando em sentimentos explosivos. É paixão digna de Leandro e Leonardo, só que sem tapas e beijos. Só com beijos. Não toquem no meu Bolsonaro. Não sei como ainda não inventaram ursinhos de pelúcia do Jair ou caixas de bombons com a foto da Michelle estampada na capa para dá-las às namoradas. Eu mesmo sou apaticamente desapaixonado, quase estóico, então não sinto absolutamente nada além de sóbrio contentamento por ter um presidente da direita com a expectativa – espero – de fazer um bom governo. E você? Verdadeiramente, seja franco: você se incomoda com a vaga ironia desse parágrafo?

Visto o motivo da “zueira” estar bem assente, vamos ao mérito. As pessoas se sentem em pleno direito de “zuá-lo”. Por quê? Ora, ele errou. Vem errando. Afirma as coisas categoricamente. Além disso, faz parte das redes sociais esse bullying saudável. Uma brincadeirinha de vez em quando não mata ninguém. Se ele reclama, poderiam respondê-lo com uma gíria baiana, não sei se também paulista: “se não sabe brincar, não desce pro play”.

É um playground agitado. Dentre as coisas que li, cito algumas: “idiota, narcisista, arrogante, deveria deixar de ser comentarista, imbecil, só erra, só fala merda, só fala besteira, parece a mãe Dinah, joga búzios, abestalhado, só atrapalha, nem parece jornalista (…)” Existem críticas mais educadas, mas também existem as nada educadas. Em minha opinião, alguns critérios deveriam balizar críticas a formadores de opinião do nosso campo político 1) Ela é uma crítica minimamente polida? 2) Ela é construtiva? Se esses critérios forem cumpridos, vamos às críticas. Caso não sejam, guarde-as para si. Infelizmente, não é assim que ocorre. A zueira impera. E ela é bem pesada.

O problema da brincadeira é que nela se traveste certa forma de pressão, cujas consequências já se fazem sentir e se farão mais ainda no decurso do governo. Ante a pressão, existem três saídas mais comuns: ou se cede ou se recrudesce ou se neutraliza. A primeira saída cria o adesismo –  que todo mundo deseja. A direita bolsonariana – a maior e mais poderosa expressão atual da direita brasileira, fundamentalmente responsável por eleger o presidente – está ansiosa por gerar um adesismo ao governo dos formadores de opinião de direita. Ela percebe que muitos oscilam entre ser uma base crítica (como o MBL) até serem quase contrapontos (o que é legítimo em uma democracia). Não querem isso. Querem uma base fechadíssima. A segunda gera raiva. Aí a coisa começa a complicar. Os formadores de opinião, muito apertados, começam naturalmente a sentir antipatia pessoal pelos bolsominions e isso pode modular a maneira como avaliam o governo. É uma reação humana. Se alguém belisca o amiguinho a cada vez que ele discorda, o amiguinho pode começar a querer vê-lo pelas costas na primeira oportunidade. Se não sabe brincar…

A terceira saída, que me parece indubitavelmente a melhor, é se recobrir do manto da serenidade sob o escudo da indiferença. Aos seus adeptos, resta continuar a fazer o trabalho, como dizia Tácito, sine ira et studio, sem ódio ou preconceito. Avaliar o que há para se avaliar. Opinar como se quer opinar. Será essa a forma adotada pela imprensa de direita? Realmente, não sei dizer. O que sei é que promover uma campanha contra Andreazza não vai ajudar muito nessa construção. Mas, se desejam, vamos lá: chicoteiem o Andreazza!