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A bolha das universidades públicas do Paraná

Homero Marchese expõe distanciamento entre comunidade acadêmica e sociedade paranaense.

25/02/2019 12h54

Depois de testemunhar o grande distanciamento entre a comunidade acadêmica do curso de Direito da UFPR e a sociedade paranaense, sexta-feira (22) foi a vez de presenciar o mesmo em relação à UEM. Como deputado estadual, compareci à cerimônia de colação de grau de cerca de 900 alunos da universidade, de 25 cursos distintos.

A professora paraninfa eleita para a ocasião apresentou-se vestida com uma camiseta “meu corpo é político”. Com ar de muita gravidade, dirigiu-se ao púlpito e depositou dois livros diante do público: “Brasil Nunca Mais”, que relata práticas de tortura no período da ditadura militar, e, se eu não estiver errado, “Dom Quixote”.

O que se seguiu foram 20 minutos de incessante discurso esquerdista: críticas ao capital e ao capitalismo, à concentração de renda promovida pela elite do país, repúdio à reforma da previdência e à violência policial, maciça crítica ao governo federal eleito, o anúncio de que o totalitarismo pode estar de volta no Brasil, exaltação de Marighella e outras figuras, defesa da ideologia de gênero, etc.

Sobre os 13 anos de governo petista que assaltou o país e o destruiu economica e moralmente, não ouvi nenhuma palavra. Quantos aos formandos? Bem, estes receberam um ou outro elogio e alguma palavra de encorajamento que pareceu ter escapado ao longo da missão proposta.

O discurso foi recebido por grunhidos e gritinhos de apoio, mas também por vaias. Ao final, os presentes se dividiam entre os que aplaudiam entusiasticamente (a grande maioria) e os que mostravam desaprovação ou indiferença.

E assim a cerimônia pôde prosseguir por mais algumas horas intermináveis.

É notável como a esquerda mais radical tomou as nossas universidades públicas e as transformou em espaço de discurso praticamente hegemônico. É notável a força da patrulha ideológica exercida por professores sobre alunos e também entre esses. E é notável como tudo isso, cada vez mais, separa nossas universidades da realidade de nossa população.

A escolha da paraninfa, muito provavelmente, não teve o apoio unânime de todos os formandos, e é provável que, em um processo de escolha que envolveu dezenas de cursos, alguma espécie de organização entre alunos de cursos distintos, mas afinados ideologicamente, deve ter levado à decisão final. Mas quem esteve presente na cerimônia ontem parecia estar visitando outra cidade, localizada em outro Estado do país.

No segundo turno das últimas eleições presidenciais, Maringá sepultou o PT e tudo o que a esquerda fez e propõe para o país em uma proporção de 76% a 24% dos votantes. Quem acompanhou a formatura da principal universidade da cidade e da região, contudo, pode imaginar que a proporção foi a inversa.

O mais incrível é como o discurso hegemônico nas nossas universidades públicas quase sempre é envolvido em contradições gritantes.

Depois de criticar o capitalismo, o governo, o Estado, a reforma da previdência e ser aplaudida por centenas de alunos graduados – e agora oficialmente desempregados -, a paraninfa foi se sentar com sua estabilidade de emprego garantida e salário de R$ 13,5 mil mensais, que levará como mínimo durante toda a carreira, por toda a vida de aposentada e ainda poderá transmitir para seu dependente, fazendo dela integrante do seleto grupo dos 5% da população com maior renda no país.

Eu penso nos pais dos formandos que acompanhavam a cerimônia das arquibancadas. Penso especialmente nos mais pobres, naqueles que fizeram um enorme sacrifício para que seus filhos chegassem ao emocionante dia da formatura: sem estabilidade, sem salário garantido, passando por desemprego e dificuldades mil ao longo dos últimos anos.

Penso na emoção que sentiam e fico imaginando se não mereciam ouvir palavras de agradecimento ou algo sobre mérito, esforço, estudo e trabalho, ao invés de um comício político. Penso se não mereciam ver o discurso focado nos formandos, os verdadeiros protagonistas do momento.

Também fico imaginando o que os pais levarão do discurso. Será que relevarão a fala e os aplausos efusivos que a seguiram como apenas a última manifestação de rebeldia chique que sabem que agora em diante se confrontará com a dura realidade do mundo? Ou comprarão o discurso como resultado acabado da produção científica de alto nível anunciado pela UEM e passarão a reproduzir a narrativa defendida pela paraninfa?

A resposta poderá ser alcançada em breve, quando os privilégios nas regras de aposentadoria no país entrarem em pauta na reforma da previdência.

Homero Marchese é Deputado Estadual pelo Estado do Paraná. Mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná e professor de Direito Processual Civil e Direito Administrativo e especializado na fiscalização de órgãos públicos. Foi servidor do Tribunal de Contas do Estado do Paraná.