A Anatomia do Dragão

As raízes históricas do Estado Chinês e suas formas de dominação

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Política
 28 de janeiro de 2019 | 20h34
Por Neoiluminismo

Nenhuma questão talvez seja mais importante para o debate geopolítico atual do que o papel que a China desempenhará em longo prazo na definição dos assuntos globais. É um leviatã de 1 bilhão e 386 milhões de pessoas, com um produto interno bruto de 12 trilhões de dólares, é a terceira maior potência militar do planeta (e a segunda considerando a capacidade militar efetiva e a primeira considerando-se apenas o exército) e o segundo maior exportador e importador de produtos do planeta (perdendo somente para a Alemanha) com um superávit de contas comerciais de 570 bilhões de dólares.

Não obstante a importância que a China tem no mundo globalizado (sobretudo no atual momento de decadência do Império Americano), muitas poucas pessoas no Brasil conhecem a história e mentalidade desse Estado milenar. De fato, em uma indagação feita ano passado no jornal El País, o professor Oliver Stuenkel da FGV questionou que, a despeito do crescente fluxo migratório e econômico chinês para o Brasil, poucos acadêmicos brasileiros parecem realmente se importar com a relevante questão de compreender esse nosso novo maior parceiro comercial.

É uma pena, pois a história chinesa é uma incrível história de uma civilização de mais de 5 mil anos. As origens do Estado chinês são remotas e não claras. O primeiro registro de um estado chinês remonta ao Imperador Amarelo, Huang-Di, porém os registros mostram que ele não FUNDOU o Império Chinês, mas sim o RESTABELECEU. Segundo muitos estudiosos isso se deve ao fato de que os chineses se consideram uma cultura única e harmônica. Para eles, os princípios do Estado chinês se encontravam já dispersos nas várias unidades tribais que viviam ao longo do Rio Amarelo e foi dessa cultura que nasceu o Estado e não o contrário. Ou seja, o Estado chinês é endogenamente formado pelas suas instituições informais e não criado por uma casta sacerdotal ou pelos juristas de sua sociedade como no mundo ocidental.

Isso é tão enraizado na mentalidade dos chineses que eles consideram que a fragmentação do seu Estado é uma fragmentação de sua própria cultura e uma ameaça à sociedade. De fato, como fica claro no “Livro dos Três Reino” de Luo Guanzhong (escrito em 189 D.C), escrito no período de decadência da Dinastia Han: “O império, há muito dividido, deve se unir para restaurar a eterna harmonia. Esse é o dever do imperador.”(pág. 1). Isso acaba gerando algo que a maioria dos analistas ocidentais não entende sobre o povo chinês: Eles não gostam de regimes democráticos. Na mentalidade cultural chinesa sempre é necessário um líder forte para impedir que a cultura chinesa seja ameaçada pelos povos bárbaros (nós ocidentais incluídos aí). Cada período de desunião é visto como uma monstruosidade por eles e para manter a ordem cada nova dinastia deve seguir os passos da anterior, de forma que a tradição que deu origem ao Estado chinês seja mantida em cada novo governo. Essa mentalidade cultural chinesa acaba gerando um fato bastante interessante, pois os chineses geralmente derrubam governos não por causa de um tradicionalismo daqueles, mas sim porque estes (os governos) ferem as tradições (coisa bastante diferente da mentalidade cultural francesa). Se o novo imperador tentar ferir as tradições milenares ele deve cair para que um novo imperador surja e as mantenha. Foi por causa disso que Pu Yi foi deposto, pois sua dinastia, os Qing, haviam se curvado e aderido à cultura dos “bárbaros” ocidentais.

Essa característica cultural chinesa se deve à própria origem de sua civilização. Segundo a historiadora britânica Julia Lovell, os primeiros chineses (entendidos aqui como a etnia Han) desenvolveram a chamada “mentalidade das muralhas” na Dinastia Shang, em 1766 A.C. Essa mentalidade dizia que a cultura e o povo chinês deveriam ser protegidos pelo imperador a todo custo da invasão dos bárbaros nômades turco-mongóis que vinham das planícies do Deserto de Ordos. Em troca de sua própria liberdade, os chineses davam poderes excepcionais a uma tribo guerreira de senhores da guerra (como os Shang) para que esses garantissem a segurança de suas terras e erguessem vastas obras de infraestrutura para garantir a defesa. Contrariando o economista marxista Karl Wittfogel, que dizia que os primeiros grandes Estados se originaram de obras de infraestrutura hidráulicas, como campos de cultivo comum, o Estado chinês se originou de projetos de infraestrutura de defesa. De fato, a primeira “grande muralha” da China data desse período, e consistia em uma obra de 6,4 quilômetros e 10 metros de altura protegendo a capital Shang de Zhengzhou.

Essa “mentalidade das muralhas”, que permeia a cultura chinesa até os dias de hoje, teve um impacto significativo em sua maneira de fazer política externa. Devido ao fato de os chineses acharem que sua cultura era superior às de outros povos (constituindo todo e qualquer outro povo como meros bárbaros, do mesmo modo que as culturas greco-romana fizeram com os outros povos indo-europeus), eles acreditavam que o imperador era senhor por direito divino de “tudo que estava sob o céu”. Tanto é assim que o nome chinês da China é “Zhongguo” ou “Império do Meio”. A China é uma civilização sinocêntrica e acredita que sua cultura é tão única e refinada que eles foram escolhidos como senhores legítimos de toda a terra.

Todavia, ao contrário de seu semelhante romano, essa visão etnocêntrica dos chineses não se traduziu em um imperialismo militar. Os chineses se consideravam superiores demais para gastar recursos e pessoas em uma atividade tão bárbara quanto a guerra. Para eles, não havia sentido naquela atividade, pois tanto eles eram militarmente mais avançados, como era “lógico” que os Estados bárbaros lhes prestassem tributos. Isso era tão enraizado na mentalidade chinesa que durante seus 5 mil anos de história o cargo de “ministro de relações exteriores” nunca existiu. As relações com outros Estados eram de responsabilidade do “ministro dos rituais”, cuja função era levar os estrangeiros bárbaros para o imperador, receber seus presentes e fazer eles prestarem o “kowtow” (reverência em que a pessoa abaixa sua cabeça até o chão) frente ao imperador.

A China durante milênios se relacionou com os outros estados asiáticos meramente por um sistema de tributos, onde os outros líderes dessas nações deveriam anualmente enviar uma missão diplomática unicamente para fazer o “kowtow” e entregar presentes ao imperador, reconhecendo assim a superioridade chinesa e seu direito sobre “tudo sob o céu”. Para manter esse sistema funcionando, os líderes chineses usavam ou de força bruta contra rebeldes ou, mais comumente, de manipulação. O caso mais marcante de uso de força bruta foi quando o imperador japonês Toyotomi Hideyoshi tentou invadir a China via Coréia. Os japoneses foram massacrados e só foram salvos da invasão pela armada do almirante Yi Sun-sin quando um “vento sagrado” (“Kamikaze”) soprou no Mar do Japão e salvou o imperador de sua aniquilação.

A manipulação dos “reinos bárbaros” era, todavia, a estratégia preferida dos chineses. A parte mais marcante dessa estratégia era a “política das cinco iscas” usadas pelo Estado chinês para manipular os bárbaros em seu favor. Ying-Shi Yün, ministro dos rituais de Qin Shi Huang, descreveu essa estratégia da seguinte forma:

Dar-lhes roupas refinadas e carruagens para corromper seus olhos; dar-lhes boa comida para corromper suas bocas; dar-lhe música e mulheres para corromper seus ouvidos; oferecer-lhes belas construções, celeiros e escravos para corromper seus estômagos e, para os que quiserem se render, o imperador deve conceder-lhes a honra de recebê-los pessoalmente e lhes servir vinho para corromper suas mentes. Essas são as que poderíamos chamar de as cinco iscas. (pág. 67)

Por meio dessa estratégia o Estado chinês controlava virtualmente seus vizinhos bárbaros. Os Estados aceitavam presentes dos líderes chineses e, pouco a pouco, ficavam reféns ou eram capturados por eles.

É dessa forma que as elites chinesas fazem política; cercando sua população atrás de muralhas (físicas, mentais ou virtuais) e submetendo os outros povos a seus interesses por meio de um forte imperialismo cultural e tecnológico. O objetivo último do Estado chinês é fazer com que todos os outros Estados sejam cópias de si mesmo, concretizando o direito cultural chinês sobre “tudo sob o céu” e cercando o mundo com sua eterna muralha.

 

BIBLIOGRAFIA:

– https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ch.html

– https://www.postwesternworld.com/2018/02/20/sobre-brasil-pouco/

– LOVELL, Julia. A Grande Muralha, Editora Record.

– SPENCE, Johathan. Em Busca da China Moderna, Editora Saraiva.

– STARR, John Bryce. Understanding China, Weng Publishers.

-TANNER, Bruce. History of China, Hackett Publishers.

 

Sobre o autor:

Sávio Coelho: Escritor do Neoiluminismo, microeconomista, samuelsoniano e chicaguista do grupo.