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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
É possível falar em ressurgimento da esquerda?

Certas características das manifestações de 2013 e 2015 estavam presentes nos atos de quarta-feira

16/05/2019 13h16

Era previsto que o governo Bolsonaro, pela simples lógica da polarização, serviria de elemento de aglutinação para uma esquerda dividida, enfraquecida e castigada por escândalos de corrupção. Fazer oposição é sempre mais fácil — especialmente diante de governantes que buscam firmar suas posições e valores de forma tão clara como é o caso de Jair.

O presidente e seu grupo sabiam disso; esperava que seus antagonistas mais óbvios tomariam as ruas desde janeiro, mantendo o clima de fla-flu das eleições presidenciais e, em grande medida, da luta pela queda de Dilma Rousseff. Mas a esquerda se calou.

Presa em brigas intestinas, passou grande parte dos primeiros meses fazendo oposição institucional no congresso. Não havia rua, artistas, bagunça. Até que Weintraub transformou administração pública em meme e resolvou ressuscitar o adversário da melhor forma possível: com legitimidade.

É amigos…como bem observou Augusto de Franco em uma análise sobre as manifestações de ontem, certas características das manifestações de 2013 e 2015 — a espontaneidade, o improviso, a desorganização — estavam presentes nos atos de quarta-feira. Veja o que diz o pensador no texto em questão:

Todavia, em manifestações onde há enxameamento (swarming) a pauta é o que menos importa. Fatores detonadores (veja o MPL em junho de 2013 no Brasil ou os “ecologistas” que fizeram um protesto ambiental pacífico contra a demolição do Parque Taksim Gezi, na Turquia) não têm nada a ver com a fenomenologia da interação que pode se manifestar (ou não) constelando multidões. Não importa se quem convocou é de esquerda, de direita, de extrema-direita (em 2013 o grupo que convocou era de extrema-esquerda, ninho de Black Blocs e, no entanto…)
Uma das características dos swarmings (enxameamentos) é a improvisação. Esta foto do 15M (ontem) em Belém é reveladora.

Prestem atenção aos cartazes (quanto mais improvisados e malfeitos, mais indicam que o fenômeno interativo transbordou as diretivas centralizadas dos supostos organizadores que, na verdade, agem como convocadores ou, no máximo, detonadores). Nas manifestações-mortadela, arrebanhadas pela CUT, UNE, PT, PSOL etc., cartazes, faixas, balões, camisetas e bonés uniformizadores já vêm prontos da gráfica. Não foi assim ontem (15/05/2019).
Comparem agora a foto acima com a foto de uma manifestação de 20 de junho de 2013, no Recife:

Para perceber e interpretar a recorrência dos mesmos padrões é necessário investigar as redes (que não são as mídias como Facebook, Twitter, WhatsApp). Mas alguns analistas não aprendem. Em junho de 2013 publiquei um livrinho sobre isso, intitulado 
Os 7 dias que abalaram o Brasil.
Vamos enumerar algumas características frequentes em swarmings:
 Surpresa (o número de pessoas consteladas surpreende até mesmo os convocadores que se achavam organizadores)
√ Improvisação (cada pessoa faz seu próprio cartaz, pinta sua própria faixa etc. – em geral, quanto mais mal-feito é este material, mais indica que não houve comando e controle centralizado)
√ Falta de uniformização (as pessoas não vão uniformizadas com camisetas e bonés, nem recebem esses itens de indumentária distintiva como brinde)
√ Não há (ou há pouco) arrebanhamento (as pessoas não são acarreadas, levadas de ônibus e caminhões, como nas manifestações de CUT e do MST)
√ A pauta é genérica e expressa interesses e desejos difusos (o fator detonador – que desencadeou a manifestação – é logo esquecido e ampliado: pode começar contra os 20 centavos de aumento nas passagens de ônibus mas extravasa o propósito inicial abarcando vários outros itens de insatisfação: com os serviços públicos, com o governo, com o sistema etc.)
√ Não há pagamento, jeton (nem sanduíche de mortadela com tubaína)
√ Em geral não há (ou há poucos) carros de som agitando o povo, “comandando a massa e dando as ordens no terreiro” (e esta é uma distinção importante, por exemplo, entre 2013 e 2015-2016 no Brasil)
√ Cada pessoa é sua própria manifestação (toma a iniciativa de convidar seus amigos, vai com com suas próprias pernas juntamente com seus parentes, colegas etc.)
√ Vibe pacífica (o clima geral é de confraternização, não de confronto: não há Black Blocs, por exemplo, ou eles só entram depois que as manifestações esfriam)
√ Bom humor (os cartazes fazem piadas com os governantes, tiram sarro)
√ Manifestação de uma fenomenologia da interação característica de redes distribuídas (as manifestações são convocadas centralizadamente, mas não se exercem sob um comando: o contingente constelado não obedece a diretivas e traça, na hora, os seus próprios caminhos).

As características observadas por Augusto foram presenciadas por mim, in loco — tanto em Brasília quanto em São Paulo — , no dia de ontem. Havia estrutura partidária, faixas pedindo Lula Livre, militantes pagos, gente trazida de ônibus e sindicatos. Mas havia uma significativa parcela de pessoas….normais.

Essas pessoas não necessariamente comungam do terraplanismo contábil da esquerda brasileira, real organizadora da manifestação. Mas simpatizam em certa medida com a estética, a linguagem, os gritos de guerra. E tem um elemento aglutinador — o ódio ao presidente — capaz de dirimir eventuais diferenças de visão de mundo. E não precisamos ir muito longe nessa conclusão: funcionou conosco durante o impeachment de Dilma Rousseff.

Outro ponto que preocupa é a reação arrogante do presidente. Em entrevista, chamou os manifestantes de “idiotas úteis”, gente incapaz de saber que H2O é a formula química da água. Além de inadequado, é estúpido; é a postura trinfualista e soberba da autoridade que realmente motiva o espírito de grupo, a ideia de rebeldia e revolta. O presidente e seus asseclas estão catalizando o reagrupamento da esquerda com velocidade espantosa. Um desastre completo.

Imagino que os teóricos de botequim que fomentam parte destas estratégias realmente desejam uma esquerda forte e barulhenta; seu compromisso nunca foi com a estabilidade e as reformas, mas sim com uma suposta “revolução” de que se consideram condutores. Para tais gênios, Bolsonaro tem uma “aliança com o povo” , e com ele deverá triunfar sobre seus inimigos. Falta combinar com a torcida do Flamengo.

O governo não vai bem. São 6 meses de crises idiotas, confusões no twitter, família abilolada e disputas internas. Esse espírito mambembe se reflete com maior intensidade em ministérios onde o grupo ideológico tem ascendência — a educação e a chancelaria, por exemplo. E lá converte-se em políticas públicas mescladas com provocação, como é o caso dos cortes confundidos com...combate a gente pelada. Iria dar merda!

A esquerda encontrou a brecha e cravou seu melhor acerto em muito tempo. Voltou a ter uma causa. Comoveu uma imprensa que apostava em farsas — Marielle, Ciclofaixas, Fernando Haddad, etc — para alimentar seus pruridos progressistas. Irão partir para o ataque diante de um governo que acusou o golpe.

O renascimento da esquerda enquanto alternativa é muito temerário; não existe um projeto progressista para o Brasil que escape de chavões imbecilizantes e figuras caricatas. Para cada petista no ocaso, surge um filho do Dirceu para ocupar seu lugar. Uma Erika Kokay. É difícil, senhores. É anti-natural.

Além disso, a própria abordagem infantil (e burra) sobre temas como reforma trabalhista, previdência, criminalidade e combate a corrupção lhes confina a um nicho de fanáticos e uma massa de famélicos que não dialogava com a classe média. Até ontem

Caso a esquerda saiba fazer a “virada”, ganhará um surto de vitalidade com o combate ao governo Bolsonaro. Existe chance de sucesso. Num momento de crise política e econômica — turbinado por declarações idiotas do presidente e familiares — é algo para nos preocuparmos. A ascensão de más ideias é tudo o que o Brasil precisa para não sair jamais do buraco.